Neurônio da Semana

Se temos a possibilidade de tornar as pessoas mais felizes e serenas, devemos fazê-lo sempre. - Hermann Messe

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Conto: A Mulher de Olhos Verdes


Nosso tio era mesmo fantástico. Estávamos todos ao redor da fogueira, eu, meu irmão e meus dois primos. Assávamos marshmallows, ou pelo menos tentávamos, enquanto um cutucava o doce do outro.
Foi então que o tio sentou em um tronco, bem perto do fogo. Tão perto que dava para ver cada detalhe das labaredas refletidas em seus óculos redondos estilo H.Potter. Ele puxou seu cachimbo,  acendeu-o e soltou boas baforadas de fumaça. Até hoje me questiono se aquela cachimbo não era mágico, analisados todas as histórias que ele nos contava após acendê-lo. Ele olhou nos olhos de cada um de nós, deu um sorriso de meia boca e começou a narrar uma história...

... sim, uma história, meus meninos, do tempo em que não havia formas de escrever, um tempo em que qualquer indício de tecnologia só vivia nos sonhos dos mais loucos. Essa história foi vivida por muitos tataravôs antes de mim, e foi contada em acampamentos como o nosso, de geração para geração.



        Havia esta mulher, sim, uma mulher de cabelos negros e olhos verdes. Tão verdes! Oh, eu ainda consigo imaginá-los. Ela vivia em algum lugar no meio da floresta, uma floresta tão escura quanto a noite e tão assustadora quanto ficar sem Internet nos dias de hoje. Alguns diziam que ela era bruxa, mas eu, duvido. Outros diziam que ela era imortal, e nisso eu acredito.
Havia também esse nosso mais longínquo parente conhecido, e ele era um aventureiro de mão cheia! E numa de suas aventuras, acabou por ficar à beira da morte, devido a um ataque de urso. Tão pobre ele estava naquele momento, engasgando com sangue, tentando se levantar do chão! Mas foi então que a mulher de olhos verdes chegou e o levou até sua morada. Ela o cuidou por muitos dias, e cada vez que ele pedia seu nome, ela se retirava do quarto.
Foi depois de muito tempo que ele conseguiu se levantar pela manhã. Caminhou pesadamente até o jardim daquela casa, enquanto tentava enxergar por entre a luz que seus olhos já haviam se esquecido. Quando a encontrou, elas estava gentilmente aparando algumas folhas sobressalentes, de costas para ele. Dentro de sua cabeça, ele conseguia lembrar-se de cada dia que foi tratado, de cada leve toque em sua fronte e de cada canção cantada baixinho. Fazer dela sua esposa era o mínimo que ele podia fazer, e era o que mais queria.
Levantou-a como se fosse o mais forte, mas com a graciosidade de uma bailarina. A beijou sem pedir permissão e sem dizer uma única palavra, e ela retribuiu. Afastou o rosto e, por Deus! Era linda, muito mais do que conseguia ver através da neblina que sua dor o submetia.
Por algumas poucas semanas eram ele, ela e aquele jardim que mais parecia um paraíso.

Foi quando ele sentiu-se pronto para partir. Iria levá-la consigo. Veio até ela novamente, como em todos os outros dias, pela manhã. Explicou sua vontade e se pôs a postos para ajudá-la a arrumar qualquer coisa que quisesse levar. Ela o fitou e disse, com convicção: "Não vou. Não posso!"
Confuso, ele correu atrás da mulher de cabelos negros. Depois de muito indagá-la, com lágrimas que faziam seus olhos parecerem um mar cristalino, ela o explicou.
"Estou fadada a ficar aqui, eternamente. Pois eu era uma princesa, sim, a mais bela que o mundo já concebeu. E por amor, eu fugi de meu casamento arranjado com o rei aliado ao meu pai. A bruxa do rei, através da sua majestosa vontade, me lançou neste lugar, o lugar onde meu amado e eu nos encontrávamos, e onde ela o assassinou. Ela me prendeu aqui, e mais, disse que, de tempos em tempos, eu conheceria aquele que faria meu coração bater novamente. Eu relembraria o meu primeiro - e amaldiçoado - amor. Eu daria tudo que ele precisaria, e tudo que eu poderia pedir era para que ele ficasse comigo, nada mais. Nenhum deles ficou até hoje, e acho que isso faz parte da maldição, de fazer-me reviver a perda de um amor, para todo o sempre."
Ele sabia que não podia ficar. Ele tinha uma família, a qual deveria cuidar e prover qualquer necessidade. Ele explicou a ela, que assentiu. Já deveria estar acostumada sim, se é que existe alguém que consiga se acostumar com a tristeza.
Houve um abraço silencioso e apertado. Ele já não conseguia mais encarar aquele rosto infinitamente lindo. Ele nunca mais a veria, sabia disso. Aquele seria o maior "se" de sua vida.
Então partiu.


Obrigado tio, agradeci. Aquele cachimbo era realmente mágico. Mas isso é história para outro dia.

Um comentário:

Alessandra Martim disse...

Acho muito bonito seus textos!
Mas esse ultimo mexeu um pouco com meu emocional, hahah, fiquei triste.
Queria que ele tivesse ficado ou voltado.
Os maiores "se" da vida mexem comigo... Mas parabéns ótimo texto!