Neurônio da Semana

Se temos a possibilidade de tornar as pessoas mais felizes e serenas, devemos fazê-lo sempre. - Hermann Messe

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Por Uma Guerra


Queria que pudesses ver o verde que vejo,
As águas daqui são mais cristalinas e o ar mais puro.
Os campos planos se estendem até o perder de vista e o sol brilha mais limpo do que qualquer outro lugar.

Mas é tão difícil distinguir o verde, porque ele está banhado em vermelho.
Os rios já estão cheios de sangue e o ar de pólvora. 
Os campos que já foram planos agora estão cheios de trincheiras, corpos e bandeiras caídas ao chão. E sinto saudade do sol que se pôs há mais de quatro dias, frente a tanta poeira e fumaça.

Quando eu te disse que iria voltar, desculpe, mas estava mentindo. No fundo eu sempre soube, mas nunca pude te ver chorar, e por isso é melhor que você o faça longe de mim. Talvez você não acreditou mesmo, e o sorriso que me deu no adeus foi só um exemplo da força que têm.
Minha querida, eu aprendi uma coisa na vida. Que amar é mostrar todos os dias quão importante a pessoa é, como se não houvesse amanhã. 
E mesmo tendo feito tudo isso, ainda sinto saudade de enrolar meus dedos em teus cabelos.

Se você está recebendo isso, bom, quer dizer que já não estou mais aqui. Esta foi a primeira carta que lhe escrevi aqui, mas será a última que você vai receber. Quer dizer que dei a minha vida, sem querer, por conta de algum profeta ou por dinheiro. Quer dizer que te perdi, por uma guerra que não acaba e não tem previsão para tal.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Sereias

Possessão de espírito.

Perco minha sanidade toda vez que olho, mesmo que indiscretamente, para ela. Observando os traços, analisando as esperanças.
Tem gente que acredita em tanta coisa... Inclusive eu, encoberto de um excesso racional, cheio de teorias escritas pelos outros. Qual a diferença entre sentir e ter?

Todos os dias apaixonarmos diversas vezes. Seja por algo, ou por alguém.
Mas, quem entende sobre o amor, se cada um tem sua forma de amar?
Sou pego nessa rede como um peixe idiota, que nada num mar de águas negras. Não quero olhar para onde estou indo, não quero admitir essa fraqueza em minha existência, apenas sigo o som de Sereias me chamando, cantando sinfonicamente o que quero ouvir.

Tenho saudade de quando sentia saudade de mim mesmo. Hoje no meio dessa pressa toda já não sei direito quem eu sou, ou no que devo sentir saudade.

As pessoas ainda acreditam no amor universal. Diga-me, ser humano, como amar todos pelo que são se tudo que chamamos de amor é apenas egoísmo?
Não amamos o outro, mas sim uma imagem que criamos deles. Quando essa imagem não nos é mais interessante, então desfazemos dele, e dizemos da forma mais cruel que podemos que "o amor acabou", de que "você está diferente". Quando perdemos o interesse, quando as coisas mudam demais, abandonamos e deixamos tudo de lado. Estamos rodeados de coisas superficiais. Objetos superficiais. Sentimentos superficiais. Pessoas superficiais. Meu espirito está possuído. Cheio de coisas de uma só vez. Pode ser de amor. Pode ser de nada.

sábado, 19 de outubro de 2013

Desmerecerimento


Um sorriso que se vai, 
Resulta em solidão.
Quem somos nós, senão seres solitários?

É uma pessoa que nos sorri, e outra que chora
São espelhos solitários que nos trazem paz, 
São cheiros familiares, são abraços, gestos de carinho
Que quanta calma nos traz!

Chega de tentar rimar esse poema, como se a vida nos trouxesse rimas, senão coisas novas a cada dia!
Chega de tentar questionar o meu sentimento por você, só viva-o!

Quando falamos sobre escolhas, não sabemos o que dizer
Quando falamos sobre sentimentos, não sabemos o que sentir
As vezes penso quão ignorantes somos, mas então percebo que fazemos o melhor com aquilo que temos.

Menina linda, tire essa uniforme de colégio. Tire também os óculos, suas lágrimas estão embaçando-o. Você não vai voltar no tempo e conseguir consertar todos os teus erros. E que isso seja regra, pois ao tentar consertar os nossos erros, podemos cometer alguns até piores.

A senda da vida nos traz aquilo que merecemos, até mesmo aquilo que pedimos. O problema é que, geralmente, não merecemos muita coisa, e muito menos sabemos o que pedir.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O Retorno de Saturno


Ele ligou pra ela, sem expectativa. Ela atendeu. Mas isso foi depois.

Ele se vestiu mais cedo, pra impressionar. Pela primeira vez não pensava no que iria acontecer, nem no que falar, e muito menos havia criado expectativas.
"Eu já havia visto esse olhar." Ela disse. E foi a coisa mais forte que alguém já tinha dito a ele. E disse mais, disse que não havia necessidade de ele importar-se com ela. Como se fosse possível. Como pode um ser tão especial, ser tão complicado?

"Fica bem" foi o que ela mais repetiu naquela noite.
"Vou ficar, mas não hoje" foi o que ele pensou em responder.

Nem hoje e nem amanhã, foi o que ele devia saber. A essa hora ela deve estar em um ônibus. E do jeito que é, deve estar contando os quilômetros até o seu destino, pra se ver mais uma vez livre, só ela e o mundo. Mesmo sabendo que deixa pra trás pessoas importantes pra ela, ela sabe que precisa ser única. E consegue. Ela não tem medo de ser assim, de apoiar os pés na cadeira da frente, de não poder ver sangue em um filme, de falar o que pensa e de se sentir mal, caso não fale.
Antes de ir, só saiba que sua risada foi a coisa mais gostosa em tempos.

Ele pediu desculpa por ter aberto tanto seu coração. Ele disse o que pensava, pois pensava que, mesmo que sentisse vergonha daquelas palavras no outro dia, ela não estaria ali pra fazer qualquer julgamento. Ela não estaria ali, na sua frente, enquanto um percebia que o olhar do outro não é coisa recente. Não estaria ali para dar aquela abraço único. E talvez nunca mais esteja. Por isso um livro de presente, pra saber que, mesmo daqui a mais vinte anos, aquela dedicatória não vai sair da contracapa, nem aquela assinatura. Ele rezou pra conhecer alguém especial, e conseguiu. Talvez não fosse tão ruim assim, ele só não soube pedir para que ela não fosse inalcançável.

Fique bem, ele quis dizer mais uma vez. Era a coisa mais sincera que podia sair naquela hora. 
Essa é uma história que só duas pessoas vão entender, que só duas pessoas vão saber que aconteceu.

Is this a goodbye?

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Saudosismo de criança

Os barulhos lá fora parecem de cristais caindo no chão.
Sinto o cheiro da água no ar. Aquele gostinho de terra molhada invadindo meus pulmões quentes.
Parece apenas chuva, mas tem muita tristeza escondida aqui...

Percebo a chuva com paciência, mas uma ansiedade pulsa por dentro de meu coração, queimando como uma brasa viva que fica velha e menor a cada carbono que o oxigênio leva embora.
Percebo o mundo com uma ansiedade de gente grande, e a chuva não é mais a mesma chuva que outrora me alegrava, que me fazia imaginar as brincadeiras em um universo paralelo. Pular em poças sujas de água, vendo a felicidade em tudo, sentindo-se apenas feliz. Hoje o que tenho é apenas o conhecimento Aristotélico da Felicidade. Tão técnico... Tão metafisico.
Hoje a chuva não passa de um obstáculo inconveniente, que dificulta meu trajeto da universidade para casa. A pressa não me deixa ver quem passa na rua; humano, assim como eu.
Não parece a mesma chuva de antes, sem duvida algo mudou. É difícil admitir que crescemos e que toda mudança implica em escolher, e escolhas sempre (sempre) resultam em perdas.
Mas o que perdemos ao nos tornar nesses adultos neuróticos e cheios de preocupações? E o que ganhamos?

Carregamos nosso mundo em nossas mãos. Ele não está pronto, e não acredito que um dia possa estar.
É como aquelas massinhas coloridas de modelar que brincamos na outrora e saudosista infância: Até o dia que essas massinhas se ressequem e não possam mais ser utilizadas, nunca pararam numa mesma forma. Sempre mudaram, sempre se adaptaram. Misturaram-se a outras cores e se modelaram.
Então me pergunto: Qual é a forma atual de nossa massinha? Como é nossa vida agora?

domingo, 6 de outubro de 2013

Estilhaços de vidro

Perdoar o outro é sempre uma tarefa difícil. O não perder vira uma questão de orgulho, pois estamos acostumados a sempre estarmos certos.
Cobro demais a mim mesmo. 
Exijo de mim o melhor o tempo todo, e isso me sufoca por dentro, como se estivesse numa câmara de gás, na qual meu eu está lá dentro batendo nas paredes para tentar sair.
As paredes são ocas. Tudo parece desvelar agora.

Quando é que começa nossa vida?
Muitos falam para continuar acreditando no amor, e que ele é bom. Bobagem, o amor não é uma virtude, e seu excesso (assim como sua falta) se torna um vicio. Um vicio que encontramos dificuldades em sair.
Estamos presos em nos mesmos.
Que relação de poder é essa que significamos com os Outros? Só sentimos raiva em quem nós achamos que podemos ser superior em alguma forma. Relacionamo-nos apenas com aqueles que nos identificarmos, e assim criamos nossos sentidos. Estamos vulneráveis demais apesar de parecermos estarmos sempre fechados.
Nunca vejo ninguém escutar minhas dores. A felicidade está mesmo na capacidade intelectiva? A gente só consegue ser feliz com aquilo que já temos, com aquilo que já somos. Desejar os outros é beliscar na própria pele, é se envenenar em gotas diárias de sofrimento e esperanças, é pisar em cacos de vidros.

Quem é o seu amor? Qual é o seu desejo? Ele é mesmo seu?



terça-feira, 1 de outubro de 2013

A Diferença


Uma garota com seus olhos azuis corre com seus braços abertos pela praia,
De longe alguém chama seu nome e lhe avisa que está chovendo.
"Qual o problema?" ela pensa consigo mesmo, "Estou cercada por água e preciso ir embora por alguns pingos que caem do céu?"

Como uma tempestade ela foge daquilo que a persegue, 
Mesmo que ninguém mais veja, ela sabe que está sempre um passo atrás.

É a mesma garota que escuta a opinião de todos a sua volta, mas só toma as decisões com suas próprias ideias.
Que não segue o que o mundo quer, que não liga pra palavras ditas em vão, usadas por tantos, em tantos lugares.
Seu coração vive em uma segunda guerra mundial, mas sua mente sã ainda a comanda por entre trincheiras.

Enquanto uns levam armas, enquanto outros levam flores, ela leva só um sorriso no rosto, e é o que mais faz a diferença.

Como uma atleta ela corre, ora ou outra passando a mão no rosto para arrumar os cabelos. O que a persegue é tudo aquilo que ela mais teme: O amor.