Neurônio da Semana

Se temos a possibilidade de tornar as pessoas mais felizes e serenas, devemos fazê-lo sempre. - Hermann Messe

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Conto: O Velho e O Mar


"Dor, era tudo que sentia.
Abriu os olhos vagarosamente e tentou perceber em que ambiente estava. 
Conseguia ver somente rochas molhadas. Ao que parecia, era uma caverna, mas não sabia ao certo como chegara ali. Suas roupas, outrora impecáveis, estavam agora sujas de uma mistura de lama, sangue e pólvora. Em um primeiro momento procurou seu cigarro, e após não encontrá-lo, riu da ignorância de fumar em um momento como aquele.
O eco das gotas d'água caindo estava tornando-se um hino fúnebre para ele. Lá fora, ainda podia ouvir à distância a guerra continuando. Dentro de si, conseguia ouvir seu coração batendo com fraqueza.
Tentou levantar um pouco a cabeça, mas a tontura não o deixava muitos movimentos. O sangue ao menos havia estancado, oriundo de dois ferimentos de bala em seu peito.
A caverna onde ele havia caído tinha uns dez metros de profundidade, era o que ele podia calcular. O sol lá fora brilhava tanto quanto a poeira podia permitir - poeira de guerra - algo que seus olhos já estavam acostumados. 
De tão fraco que estava, adormeceu, e sonhou. Sonhou com o mar, com o cheiro e brilho únicos dele. Quando criança, cresceu em uma cidade portuária. Conseguia lembrar-se somente de sua mãe, de seus irmãos e das inúmeras vezes em que passaram as tardes sentindo a água refrescar seus pés, no cais.
Então o mar já não era mais um quebra cabeças pra ele. Sabia que podia confiar na força do oceano, como também podia confiar em seu coração. Foi com essa força renovada que ele acordou.
Levantou-se lentamente e começou a escalar a parede da caverna. Ao chegar no lado de fora, viu que a noite já avançava sobre o céu, tão majestosa quanto um felino prestes a dar o bote em sua presa. 
Não havia fumaça, nem cheiro de sangue no ar. Parecia que nada havia passado por ali, nem os dois mil homens dos quais ele era apenas mais um.
Como havia predito, o mar estava ali. O aroma encheu os pulmões já abatidos dele. Com um sorriso despreocupado no rosto, ele correu em direção à água, mergulhou, abraçou-a e se lembrou de todos os momentos de sua vida."

"Dor, era tudo que eu sentia. Desculpe-me por ter ido embora e por ter terminado aqui, assim. A guerra não traz nada de bom, nem ao vencedor, quem dirá ao perdedor. Eu fui obrigado a vir, mas também vim por vontade própria. A culpa tem que ser repartida, entre os que criaram isso tudo e eu mesmo.  Cuide da minha moto, e cuide-se." - Era o que dizia a carta, que estava ao lado do corpo do soldado que a escreveu, encontrado numa caverna, já falecido.

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