Neurônio da Semana

Se temos a possibilidade de tornar as pessoas mais felizes e serenas, devemos fazê-lo sempre. - Hermann Messe

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Lapsos de Tempo


Eu andei, por muito tempo, só. Andei sem direção, sem água pra tomar e até mesmo sem esperança. Dessa vez, eu não havia levado nada comigo, porque não havia tempo, não havia dado tempo. Saí, senão a dor que eu sentia no peito sairía antes de mim, em formas distintas, tanto lágrimas quanto gritos. As coisas aconteceram muito rápido. Em um dia eu estava bem, no outro já não mais. 
Dessa vez, também, não vou dizer que o motivo da minha fuga foi uma pessoa, uma coisa, uma decepção, pois na verdade é tudo junto, sempre foi. É como se uma coisa fosse amarrada a outra, como se a amizade trouxesse intimidade, a intimidade trouxesse um beijo, que traria sentimento, amarrado à confiança, que trouxe decepção, dor, lágrimas, gritos.
Foi assim que eu fui embora, e foi por esse motivo também. 
Andei do lado direito de uma rodovia asfáltica e deserta, tão deserta quanto o coração do único homem que nela estava. Não havia casas, sinais de civilização. O asfalto era rugoso, mas não do tipo que não sofre manutenção, e sim do tipo que nunca foi utilizado. Havia uma fina camada de poeira por cima dele, que se espalhava frente aos meus fortes passos. 
O vento tinha um cheiro metálico no começo, como de sangue, que depois foi tornando-se agridoce. Refleti, comigo, que o cheiro pudesse alterar-se conforme meu estado de espírito, mas ri no mesmo momento, tamanha mistificação. Mas como não fantasiar um lugar daquele?
O que mais me confundia era a falta de sede, de fome, de sono. As montanhas vinham, me encontravam, e ficavam para trás, e mesmo assim as minhas pernas não gritavam. Ou eu não podia ouví-las.
Depois de um certo tempo, de vários dias, comecei a me acalmar. O vento, por curiosidade, havia parado de tentar desarrumar os meus cabelos castanhos e tinha se acalmado também. Eu sabia que não chegaria a lugar algum, e mesmo assim andaria por todos os lugares. A minha mente começou a se preocupar com um objetivo. Esse objetivo não era o casual, não era uma pessoa, ou uma coisa, ou uma decepção. Na verdade ela começou a se preocupar com tudo junto, porque, como já disse, as coisas estão interligadas  umas às outras. Pela primeira vez, em - ao que eu podia perceber - meses, me preocupei com água. Novamente ri, da mistificação que a necessidade de água me trazia, mas também não sentia necessidade de pessoas, de coisas, muito menos de decepções.
Foi quando, absorto nesses pensamentos, eu caí. Eu não sei se caí por tontura, por algum tropeço, ou se algo me atingiu. Eu vi o asfalto, rugoso, coberto pela camada de poeira, a menos de centímetros dos meus olhos. E então escuridão. Comecei a sentir frio. O vento agora não existia, só um cheiro metálico, mas não de sangue. Eu abri os olhos, com dificuldade, e vi pessoas, vi coisas, e decepções. Eu acordei em um hospital.
Mas como? Caminhei por anos sem uma única alma viva a dar sinal de sua presença, e mesmo assim, havia sido encontrado caído, desacordado! 
Ao ver uma enfermeira se aproximando, tentei lembrar-me como usar palavras. Pedi a ela em que dia, que ano estávamos. Ao saber da resposta, quase ví o asfalto novamente, perto do meu rosto. Era somente um mês desde que eu havia fugido! Era como se o tempo tivesse alargado-se, pois realmente eu andei por anos, minha barba era prova disso. Eu havia refletido sobre tudo que um homem pode, um dia, refletir. Havia visto todos os meus erros, minhas faltas, até mesmo meus acertos.
Dois dias depois eu já estava em casa. Ela era a mesma, só com alguma essência mais forte, devido ao mofo. A vida estava voltando a ser a mesma. Até mesmo as pessoas eram as mesmas, como também as coisas, e as decepções. Mas havia algo diferente nessa composição. Eu estava diferente. 

Eu agiria diferente.


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