Neurônio da Semana

Se temos a possibilidade de tornar as pessoas mais felizes e serenas, devemos fazê-lo sempre. - Hermann Messe

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Passagem à 2014


As páginas do livro viram-se exponencialmente, rapidamente. Uma ou outra palavra que desconheço, acabo deixando para saber seu significado depois.
Hora ou outra fecho o livro, com o marcador repousando na página atual. Preciso focar meus olhos em lugares distantes. Simplesmente levanto a cabeça e vejo um campo verde, que vai de alguns metros à minha frente até o perder de vista.
Conforme minha mente desprende-se do mundo daquele livro, percebo o aroma no ar. É uma mistura de notas amadeiradas, quase como árvores no outono, cheirando ainda à toda a chuva que cai nessa época, com uma nota um pouco mais irritante, que vêm da fumaça dos trens que param, dos passageiros que entram e saem da estação na qual estou.
Como não há nada mais interessante a se fazer no momento - a não ser um senhor de alguns oitenta e poucos anos, que prende sua atenção em mim, tal como estivesse me julgando -, eu acabo voltando ao meu livro. 
Por que não falar um pouco dele? Bom, trata-se de um livro normal, com sua capa e contracapa já gastas pelo tempo, suas bordas amareladas e seu cheiro indiscutivelmente agradável. Em seu conteúdo, somente coisas sobre mim - desculpe, não é de minha vontade passar uma imagem narcisista. Fique tranquilo, ninguém escreveria um livro sobre mim -. Coisas que aconteceram nesse período. Marcando as melhores páginas com adesivos, fiquei preocupado se os mesmos adesivos iriam sobrar, ou faltar. Foram amores perdidos - não, retifico, foram amores vividos -, reencontros tensos e resolvidos, muitos desapontamentos - principalmente vindos de mim mesmo -, muitas lágrimas desnecessárias e socos na parede. Mas também foram muitas risadas, encontros felizes, orgulhos e abraços.
Ler aquele livro demorou muito, mas, como havia de se esperar pelo trem, eu tinha tempo. Ele chegou, freou lentamente e soltou um apito forte. Em algum lugar à minha direita, ouvi chamarem os passageiros. Levantei-me, meio tonto ainda pelo tempo que passei sentado, e olhei ao meu redor. Aquela cidade eu não veria novamente, e naquele momento imaginei se deveria sentir saudade ou alívio.
Na capa do livro, em números imponentes, 2013. No trem, em igualdade de tamanho e importância, 2014. 

Feliz ano novo!

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Pelo menos essa noite...


Ele me abraçou fortemente. Sua mão percorreu pelo meu corpo e pude sentir o calor que dela emanava. Seus dedos trêmulos me tocavam com receio e prazer. Sua respiração ofegante combinava perfeitamente com as batidas descompassadas de seu coração. Sinto-me lisonjeada, afinal, ele nunca esteve realmente com outra mulher e eu serei a primeira. Mas isso não é verdadeiramente importante. O que importa é o que está prestes a acontecer neste momento. O tempo não existe para nós. O passado e o futuro se tornam planos distantes e tudo o que importa é o aqui e o agora. Eu o segurei firme, para ter a certeza de que só um sentimento nos entrelaçava. Eu o beijava como se cada beijo fosse o último. Seu cheiro me embriagava, fazendo-me desejar consumir cada gota da sua essência. Cada movimento, cada gesto, cada olhar, cada sorriso, me desarmavam. Nossas mãos dançavam entre si e nossos corpos uniam-se, não existindo fronteiras, tornando-nos um só. Eu não quero perder o controle, entretanto você dissolve cada defesa cuidadosamente construída. Elas estão ruindo. Eu já sabia. Já te amava muito antes de nos reencontrar novamente. E por mais que a insegurança teime em me acompanhar, ela some quando estou na sua presença. Mas eu sei. Você é livre como um pássaro, livre para voar para onde quiser, livre para deixar que tuas asas lhe guiem na imensidão deste céu azul. Mas, continue ao meu lado, pelo menos essa noite, pelo menos até o amanhecer...

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A Mulher de Olhos Azuis


De canto de olho eu percebo a tela do meu celular ativar a cada deformação na pista. 
São 20:22.
21:23.
22:50.
23:59.
05:43.

A estrada me ataca de frente e some atrás de mim, e as vezes me pego prestando mais atenção no efeito espelho das curvas em meu retrovisor do que à minha frente.
Tem uma mensagem esperando para ser lida. Deveria ser tua, mas não é. 
Deus, eu ainda estou esperando aquela resposta.

Um dia acabei lendo, por aí, que devíamos nos arrepender mais daquilo que fazemos, do que deixamos de fazer. 
Mas e do que nos foge a alçada? Qual sentimento que deve haver nisso? Frustração?
O que quer que eu traga agora comigo no porta-malas, não vai fazer diferença. Porque eu estou indo embora de tudo, estou indo aonde sempre acreditei ser meu sonho, com o único intuito de ser mais solitário. Estou indo, PORQUE NUNCA CONSEGUI DIZER QUE TE AMO, OLHANDO NESSES OLHOS AZUIS. E mesmo agora, enquanto a banda que toca em meu rádio grita qualquer coisa com amor, eternidade e satisfação, palavras que sequer posso entender em um passado longínquo, você nunca vai saber de tudo isso, a não ser que algum dia leia tudo isso e entenda.

Bom, eu nunca acreditei em amor à segunda vista. Mas poderia você, por favor, tropeçar nisso e crer? A pequena garotinha dos olhos azuis e cabelos ao vento ainda está nos esperando.

Um Minuto da Sua Atenção?



Hm. Ei Pai, será que poderia me mandar uma estrela cadente?
Eu havia acabado de desligar o motor. Saí vagarosamente do carro e me encostei em sua lateral, a cerveja ainda tentando resfriar minha garganta que queimava.
As estrelas me chamaram a atenção.
Comecei a conversar comigo mesmo, sobre todos aqueles assuntos infindáveis, tais como origem do universo, para onde vamos, de onde viemos.
Então lembrei de quantas vezes havia parado naquele mesmo lugar e olhado para os mesmos pontos luminosos no céu. Respirei fundo, e olhei para a esquerda. 
Lá estava eu e uma amiga, escolhendo nossa estrela. A caixa, um conjunto característico, estaria logo abaixo da que escolhemos. Imaginei se ela algum dia ainda olhava para o céu, e mais, se lembrava daquela noite há tantos anos atrás. Pisquei, e olhei para a direita.
Eu e um grande amigo tínhamos nosso caderno, onde anotávamos todas as coisas estranhas que apareciam no céu, tanto como estrelas cadentes e possíveis satélites. Todas as noites deitávamos na calçada dura, adjetivo que não fazia diferença para a grande amizade que tínhamos, nem para a curiosidade que olhar lá pra cima gerava em cada um de nós. Imaginei também se ele ainda tinha tempo de admirar as estrelas e lembrar de tudo aquilo, e mais, se sentia saudade, tanto quanto eu, dessas coisas que a gente nunca mais vai fazer e que damos tanto valor hoje.
Novamente olhei para o céu e pedi. Pedi por um risco no céu, um sinal de que Ele, diferente de todo mundo, ainda me olhava lá de cima. E mais. Perguntei qual era o sentido de tudo aquilo, qual era o sentido de eu, diferente dos demais, ainda estar ali olhando para o mesmo lugar, enquanto as minhas memórias ganhavam vida à minha volta, como se várias realidades passadas estivessem ocupando o mesmo espaço, no presente. Perguntei também o que eu deveria fazer da minha vida.
E no mesmo momento que perguntei isso, soube que, mesmo que ficasse ali até o fim dos dias, eu não descobriria assim, tão fácil.

domingo, 15 de dezembro de 2013

O Que Vem Depois


As sombras estão postas, e elas me mostram de onde exatamente vêm a luz. E é pra lá que eu vou.
Os lugares por onde passo são os mais diferentes possíveis. 
Primeiro estou num quarto. As paredes são estranhas, como se estivessem curvadas, e acho que consigo até mesmo contar quantas rachaduras as várias lâminas de madeira têm. Balanço a cabeça, preciso seguir em frente, mas então me atenho ao chão - ele não existe. É como se eu estivesse pisando no céu. Ergo vagarosamente um dos pés - tenho medo de transpassar a barreira na qual tenho equilíbrio e cair sem fim - e vejo a planta dos pés refletida no chão. Firmo o pé novamente e começo a me abaixar, chegando com o rosto cada vez mais perto daquela força invisível. Meu rosto vai ficando reconhecível no espelho, mas percebo que algo está errado: estou desfigurado. Apoio uma mão no chão e toco meu rosto - sim, ele está normal, ou ao menos está com tudo no lugar - e coloco a mesma mão na imagem do meu rosto.



A barreira desaparece. Era esse meu medo, e agora estou caindo.

O céu é tão límpido quanto o do nascer-do-sol. Atravesso algumas nuvens, e por alguns segundos, perco totalmente o medo de onde aquela queda vai me levar. Mas as cores começam a esfriar, o azul escurece, as nuvens começam a ficar sólidas - tão sólidas quanto se possa imaginar - e começo a me bater nelas. Nesse momento de dor que mais parece sem fim, quando finalmente minha cabeça vira-se para baixo e tudo o mais desaparece, o chão vêm de encontro a mim. Tal qual eu fui de encontro a ele, anteriormente, agora com muito mais velocidade e com um destino só: morte. 

Se é que a morte têm salas com papéis de parede marrom-claro e cheiro de lavanda. 

Olho pra cima e lá está o lugar de onde vim - um céu escuro, tempestuoso - certamente para lá é que não quero voltar. À minha frente uma porta, comum, com um trinco redondo também de madeira. Em suas frestas, luz. Eu abro a porta, e a luminosidade me cega temporariamente.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Coisas abstratas

A expectativa diante de algo não exclui ou diminui a frustração.
Pensamos que somos muitas coisas, mas somos também aquilo que os outros dizem sobre nós. 

Não conhecemos as pessoas até chegarmos perto o bastante delas. Ver o quão humano e frágeis são.

Um rosto parado na sala olhando para mim e esperando eu devolver o mesmo olhar. Somos nós, e nossa capacidade de complicar tudo. Por quanto tempo estive ali, parado?
Gosto de refletir sob o tempo nublado, e perceber que nem tudo é simples demais para se entender com apenas algumas horas de reflexões.
São coisas abstratas, que mexem com a gente. Deixam-nos inquietos e vulneráveis. Somos amantes do tempo, mas antes de tudo, amantes de nos mesmos. A culpa nunca é de um individuo apenas. 
Somos responsáveis pelos nossos atos, mas nunca, nunca mesmo, agirmos sozinhos. Tem sempre alguém em nossas cabeças, em nossos sentimentos.



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Todo dia é dia de aprender!


Ainda bem que não nascemos sábios. Ainda bem que somos seres humanos em constante autodescoberta e aprendizado. Tudo o que nos acontece, sem querer parecer fatalista, não são por mero acaso. Acaso é o nome que damos a uma Lei que não conhecemos.  Há algo muito maior do que imaginamos regendo tudo isso que chamamos de Universo. “Isso” ganha vários nomes, mas é uma coisa só. Somos todos um. Estamos todos interligados, vivendo nossas vidas sob Leis Universais. Quando você abre sua mente para aprender no dia-a-dia a Linguagem Invisível, desdobramos a consciência, descobrindo um universo de infinitas possibilidades que carregamos dentro de nós. Somos mutáveis, adaptáveis, frágeis e com uma fé estranhamente inabalável na esperança de dias melhores. 

Nessa semana pude absorver algumas lições valiosas na arte do conviver. Nem sempre é fácil. Fazemos dobraduras e muito descuidamos da nossa resignação frente à dor alheia. Buscamos ter paciência quando não há espaço para tolerância. Exigimos que o outro faça aquilo que gostaríamos que fizessem para nós. Exigimos muito e pouco temos para oferecer. Moldamos padrões de personalidade, intitulando heróis e vilões na nossa própria trama, o que nos faz ser vítima ou algoz nesse drama sem aplausos. Paciência, já diziam os mais antigos: é uma virtude! Todos os dias somos metralhados com situações em que nossa paciência chega ao ápice do limite. Explodimos. Descontamos nossa raiva ou estresse no próximo, sem pararmos para pensar que somos responsáveis por tudo àquilo que atraímos à nossa volta. Se você está passando por uma situação ruim, é porque você atraiu! Você semeou isso de alguma forma, seja através de ações pretéritas ou pensamento. E pensamento é matéria! Todos estão sujeitos a Lei de Causa e Efeito. Estamos constantemente projetando nossos desejos e nossas frustrações. Alimentamos diariamente nossos medos e planeamos nossa sombra nos outros. E a sombra é algo perigosíssimo, pois a ocultamos por debaixo de disfarces de uma falsa benevolência e ninguém quer aceitar que somos tão, tão seres falhos e consideravelmente miseráveis, mendigos de verdadeira afeição! E um dia, a máscara cai, a verdade vem à tona e ninguém consegue sustentar por tanto tempo um nicho de falsidades sobre si mesmo.  


Cadê a paciência, quando estamos isentos de tolerância? Cadê a resignação e aceitação frente à imperfeição do outro?  Você é perfeito? Não. Cadê nossa benevolência e onde escondemos nossa “humanidade”? Será que somos melhores que o próximo? Será mesmo que temos esse direito de julgar? E o que é ser “melhor”? A resposta te fará mais ou menos humano? Conviver não é fácil, mas seja perseverante, aprenda a aceitar o próximo da forma como ele é. Não seja um crítico ferrenho quanto às limitações ou defeitos do outro, pode ser que a maledicência que seus olhos veem nele, seja apenas um reflexo da sua própria sombra que tenta esconder de todos! 


Abrace as diferenças!


Queria dizer a respeito também daquelas situações que achamos que chegamos ao nosso limite. Ciclos que estão quase sendo finalizados, mas que precisam passar por um processo de confrontações, conflitos internos ou externos, necessários para que possamos atravessar essa fase com uma bagagem especial de aprendizado! Nada é em vão. Tudo o que passamos é necessário de acordo com o quê nosso “espírito” necessita, para que assim possamos subir alguns degraus da nossa própria evolução. É como escalar uma montanha (ainda que figurativo, pois nunca escalei fisicamente uma, mas como escritora, me permito imaginar em tal situação).

 A escalada, inicialmente começa de forma agradável, pois estamos no pique, cheios de energia pra enfrentar esse desafio. Não nos atemos aos riscos e nosso único objetivo é escalar essa montanha, chegar ao seu topo e gritar: vitória! Nos primeiros obstáculos, os enfrentamos de forma otimista. Mas com o decorrer do tempo, as dificuldades parecem serem gritantes e quanto mais subimos, mais falta de ar sentimos! No meio da escalada, pensamos em desistir, mas ainda sim, temos aquele desejo inato de saber como é a vista lá de cima! Superamos cada empecilho, com força, fé e “ESPERANÇA”. Mas parece que a cada passo, nossas energias vão sendo minadas. Concluímos 4/5 da escalada e nesses 1/5 restantes, o desespero se instala. As angústias pela falta de ar, pelas dificuldades, pelas dores no pé, pela pressão da atmosfera, fazem com que pensemos em desistir. Mas... Eu me pergunto: chegou tão longe, pra quê desistir nessa altura do campeonato? Não. 

Esse é o momento em que provamos para nós mesmos que a fé e a coragem surgem nos momentos em que menos esperamos, surgem lá de dentro, nos fazendo sermos perseverantes quanto à realização de nossos ideais! Não pense que essas “limitações” estão te prejudicando, mas na verdade, estão te ensinando a como vivenciar seus sonhos e dar valor ao que será conquistado!



"Seja um gerador de bençãos na sua vida"

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Conto: A Mulher de Olhos Verdes


Nosso tio era mesmo fantástico. Estávamos todos ao redor da fogueira, eu, meu irmão e meus dois primos. Assávamos marshmallows, ou pelo menos tentávamos, enquanto um cutucava o doce do outro.
Foi então que o tio sentou em um tronco, bem perto do fogo. Tão perto que dava para ver cada detalhe das labaredas refletidas em seus óculos redondos estilo H.Potter. Ele puxou seu cachimbo,  acendeu-o e soltou boas baforadas de fumaça. Até hoje me questiono se aquela cachimbo não era mágico, analisados todas as histórias que ele nos contava após acendê-lo. Ele olhou nos olhos de cada um de nós, deu um sorriso de meia boca e começou a narrar uma história...

... sim, uma história, meus meninos, do tempo em que não havia formas de escrever, um tempo em que qualquer indício de tecnologia só vivia nos sonhos dos mais loucos. Essa história foi vivida por muitos tataravôs antes de mim, e foi contada em acampamentos como o nosso, de geração para geração.



        Havia esta mulher, sim, uma mulher de cabelos negros e olhos verdes. Tão verdes! Oh, eu ainda consigo imaginá-los. Ela vivia em algum lugar no meio da floresta, uma floresta tão escura quanto a noite e tão assustadora quanto ficar sem Internet nos dias de hoje. Alguns diziam que ela era bruxa, mas eu, duvido. Outros diziam que ela era imortal, e nisso eu acredito.
Havia também esse nosso mais longínquo parente conhecido, e ele era um aventureiro de mão cheia! E numa de suas aventuras, acabou por ficar à beira da morte, devido a um ataque de urso. Tão pobre ele estava naquele momento, engasgando com sangue, tentando se levantar do chão! Mas foi então que a mulher de olhos verdes chegou e o levou até sua morada. Ela o cuidou por muitos dias, e cada vez que ele pedia seu nome, ela se retirava do quarto.
Foi depois de muito tempo que ele conseguiu se levantar pela manhã. Caminhou pesadamente até o jardim daquela casa, enquanto tentava enxergar por entre a luz que seus olhos já haviam se esquecido. Quando a encontrou, elas estava gentilmente aparando algumas folhas sobressalentes, de costas para ele. Dentro de sua cabeça, ele conseguia lembrar-se de cada dia que foi tratado, de cada leve toque em sua fronte e de cada canção cantada baixinho. Fazer dela sua esposa era o mínimo que ele podia fazer, e era o que mais queria.
Levantou-a como se fosse o mais forte, mas com a graciosidade de uma bailarina. A beijou sem pedir permissão e sem dizer uma única palavra, e ela retribuiu. Afastou o rosto e, por Deus! Era linda, muito mais do que conseguia ver através da neblina que sua dor o submetia.
Por algumas poucas semanas eram ele, ela e aquele jardim que mais parecia um paraíso.

Foi quando ele sentiu-se pronto para partir. Iria levá-la consigo. Veio até ela novamente, como em todos os outros dias, pela manhã. Explicou sua vontade e se pôs a postos para ajudá-la a arrumar qualquer coisa que quisesse levar. Ela o fitou e disse, com convicção: "Não vou. Não posso!"
Confuso, ele correu atrás da mulher de cabelos negros. Depois de muito indagá-la, com lágrimas que faziam seus olhos parecerem um mar cristalino, ela o explicou.
"Estou fadada a ficar aqui, eternamente. Pois eu era uma princesa, sim, a mais bela que o mundo já concebeu. E por amor, eu fugi de meu casamento arranjado com o rei aliado ao meu pai. A bruxa do rei, através da sua majestosa vontade, me lançou neste lugar, o lugar onde meu amado e eu nos encontrávamos, e onde ela o assassinou. Ela me prendeu aqui, e mais, disse que, de tempos em tempos, eu conheceria aquele que faria meu coração bater novamente. Eu relembraria o meu primeiro - e amaldiçoado - amor. Eu daria tudo que ele precisaria, e tudo que eu poderia pedir era para que ele ficasse comigo, nada mais. Nenhum deles ficou até hoje, e acho que isso faz parte da maldição, de fazer-me reviver a perda de um amor, para todo o sempre."
Ele sabia que não podia ficar. Ele tinha uma família, a qual deveria cuidar e prover qualquer necessidade. Ele explicou a ela, que assentiu. Já deveria estar acostumada sim, se é que existe alguém que consiga se acostumar com a tristeza.
Houve um abraço silencioso e apertado. Ele já não conseguia mais encarar aquele rosto infinitamente lindo. Ele nunca mais a veria, sabia disso. Aquele seria o maior "se" de sua vida.
Então partiu.


Obrigado tio, agradeci. Aquele cachimbo era realmente mágico. Mas isso é história para outro dia.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Não enterre seus talentos!


"O que fizestes com os talentos que lhe confieis?"


Vejo muitas pessoas enterrarem seus talentos. Muitas fecham seus olhos para suas reais potencialidades e sequer percebem a preciosidade que existem dentro delas.

A verdade é que todos nós temos medo, todos nós nos desconhecemos por completo.

Temos medo de arriscar, pois o comodismo instalado em nossas almas é mais interessante. Temos medo de “mudar”, pois pau que nasce torto morre torto. Temos medo de falhar, pois somos constantemente cobrados a sermos "perfeitos" e a seguirmos os padrões impostos pelo sistema. Somos cobrados a sermos aquilo que não somos. Somos cobrados pelos outros a percorrer um caminho contrário à nossa Verdadeira Vontade. 

Mas o que é Verdadeira Vontade se estamos tão agarrados aos valores mundanos e a crítica ferrenha da opinião alheia? Tampamos nossos ouvidos e relegamos nossa voz interior. Passamos a sermos reflexos do que o outro diz sobre nós. Escondemos nossa criança interior, murchamos e por fim, enterramos nossos verdadeiros talentos. Tornamo-nos árvores que não produzem frutos, pois vale mais agradar o outro do que a si mesmo. Nossa alma enfraquece desconhecendo o verdadeiro propósito que a fez estar, hoje, aqui. Nos tornamos céticos a tudo e críticos assíduos da conduta moral. Montamos esquemas mirabolantes tentando encaixar as pessoas a esses padrões cientificamente comprovados, mas que não chegam a desvendar 1/3 da nossa verdadeira potencialidade, como seres humanos. Somos originalmente incríveis, cada um com suas potencialidades a serem desenvolvidas e sua própria individualidade cósmica, mas não acreditamos nisso, pois precisamos de imagens para espelhar o que não somos. Ninguém, diz: seja você mesmo! Todos falam: Seja como Jesus, seja como Krishna, seja como Buda, seja como Madre Teresa, mas ninguém diz: seja você mesmo! E o que é ser você mesmo? Apenas você é que saberá me dizer! Não deixe que os outros lhe digam o contrário e nem que suas feridas o tornem aquilo que você não é.

Muitos enterram seus talentos por medo. Mas o medo também nos traz a coragem! O medo pode nos impulsionar para que arrisquemos mais a corrermos atrás de nossos sonhos. O medo pode ser construtivamente bem empregado na realização de nossa Verdadeira Vontade ou Lenda Pessoal.  O medo pode fazer com que confrontemos as ilusões alimentadas pelo nosso ego, desconstruindo todas as fantasias que rodeiam nossa real essência. O medo nos traz a coragem, pois vale a pena morrer tentando realizar seus sonhos, do que morrer sem nunca ao menos ter tentado.

Assim, não teremos medo de falhar, pois saberemos que o erro é um gerador de aprendizados importantes para nossa evolução. Ouviremos mais a voz do nosso “eu interior”, respeitando o que o outro tem a nos dizer, mas que aquilo que o outro nos diz  possa antes passar por uma filtragem, separando tudo aquilo que é destrutivo e mantendo apenas o que é produtivo para nós!

Lembre-se o essencial é invisível aos olhos. 

Não enterre seus talentos, pois onde estiver seu tesouro, ai estará seu coração!





quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Quebra-cabeça


Onde foi mesmo que guardei as peças daquele quebra-cabeça? Talvez as tenha perdido ou simplesmente elas se encaixaram nos lugares que realmente deveriam estar. Meu quebra-cabeça não está totalmente completo e creio que ele nunca ficará. Não irei me afligir por dores imaginárias e nem me lamentar por aquilo que poderia ter sido feito e não o fiz.

Às vezes olho para o passado. Ele não é mais algo tão assustador assim. Não preciso mais fugir dele e nem me condenar pelas lembranças que invadem minha mente querendo tomar totalmente o controle do meu presente. São apenas, apenas lembranças.

Não preciso mais me arrepender quanto às oportunidades perdidas e nem chorar pelo leite derramado. Não preciso me lamentar pelos amores não vividos, pelas flores que se murcharam ou pelos espinhos que pisei durante o caminho. Não preciso mais colecionar lembranças de um passado que existe em minhas reminiscências ou de um futuro que não o vivenciei, não o edifiquei e pus tudo a ruir.

A verdade, é que as peças do meu quebra-cabeça sempre estiveram do meu lado. Sou eu, senhor absoluto do meu destino.



"Meu bravo guerreiro, quantas vezes já estivemos em campos de guerra e quantas marcas carregamos de lutas perdidas? São feridas que foram cicatrizadas com o tempo, mas fugimos delas por medo de encará-las face a face. Mas hoje não. Hoje acordamos diferentes, porque nunca somos os mesmos de ontem. E aquilo que nos fez persistir nos nossos ideais, pulsa fortemente dentro de nossos corações, fazendo com que corramos atrás dos nossos mais caros sonhos..." 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O Coração de uma Garota


Tanto faz como tanto fez, meu amor.
As coisas que acontecem não são para serem levadas tão a sério assim.
E pare de chorar, você não pode estragar a maquiagem.

Eu sempre terei um tempo pra ser o teu ombro amigo.

Aquela noite que você apareceu no meu quarto e pediu um pouco de atenção,
"Baby, o que é que você tem?" Eu perguntei.
"Bom, primeiro, eu tenho frio", e riu. O vento entrava por entre a janela aberta, as cortinas azuis balançavam e lá fora o silêncio rugia com toda sua força.
"Pai. O meu sapato faz meu pé doer. O meu chapéu-coco estraga meu cabelo e minha jaqueta aperta o meu peito. Por que é que o mundo está de cabeça pra baixo?" 

Eu lembro de quando você corria pela praia, os cabelos no rosto, nos olhos e dividindo lugar com um sorriso, em sua boca.
Filha, você acha mesmo mais difícil ouvir o coração de uma garota, do que cuidar desse joelho ralado? 
Bom, pensando bem, é mesmo.

"Seus pés, meu bem, você deve usá-los somente pra correr atrás daquilo que te fará bem. Não o duvidoso, não o sofrido. Sua cabeça, sua mente, a razão, deve governar todo o resto através da inteligência, pois lembre-se: o mais fácil não é o mais correto. E por fim, seu peito, seu coração, o coração de uma garota. Aqui, a parte mais importante de todas, e te direi o porquê: Porque é isso que fará seus pés correrem atrás daquilo que achas imprescindível e os machucará, como também procurará caminhos fáceis e espinhosos para encontrar aquele, ou aquilo, que almejas, e isso apertará seu peito com a força de um trator."

Ela sorriu, e mesmo adolescente, tinha o mesmo sorriso de sempre, seja do passado ou seja do futuro, que hoje é o presente. Ela sabia que eu a tinha compreendido, e eu fiquei feliz por saber disso também.

Eu te vi sorrir, eu te vi chorar, até mesmo brigar comigo. Eu lembro de cada fase, e de cada coisa que era importante pra você. Eu vi bonecas, vi walkmans, computadores, tênis all-stars, garotos e faculdade. Eu lembro, e é como se uma apresentação de slides passasse pelos meus olhos nesse momento. Eu não consigo tirar o olhar do teu, mas preciso me preocupar em olhar pra frente e não cair. Deus, eu preciso ser homem mais hoje, eu não posso chorar.. Eu estou andando sobre um tapete vermelho, eu estou levando a minha filha ao altar. 
Mas aquela menininha que corria na praia é imutável, é imortal, tal como meu amor por você.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Aquilo que falta: Coragem para amar


As cicatrizes que carregamos revelam quem somos.

Amar às vezes é efêmero,
mas às vezes é necessário.

Você existe para além desta casca de noz?
Estou conectado aos meus sentimentos.
Cada um tem seu tempo.

Todos nós amamos,
só que da forma que damos conta de mostrar.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Dama da Noite


Naquela noite que confessei como estava me sentindo, senti um verdadeiro alívio. Apesar do descompasso causado pelo friozinho na barriga, era a primeira vez que não via exigências a serem feitas pelas partes comprometidas, mas liberdade para sentir o que se estava sentindo. Não era necessário que algo a mais fosse dito. Tentei pensar no significado de suas palavras e cheguei até interpretá-las erroneamente. Desculpe, se te assustei. Talvez esteja indo com sede demais. Devo aprender que tudo tem um tempo certo para florescer. Até mesmo os sentimentos precisam ser regados diariamente através de pequenos atos, palavras singelas, por um sorriso sincero ou um olhar acolhedor.

Estou em posto, em um campo de batalhas. Luto contra mim mesmo, para não ser obrigado a acreditar que tudo isso não passa de expectativas não preenchidas, que meu sentimento que cresce a cada dia, não passa de um fruto das minhas idealizações frustradas. Não! Estou lutando bravamente, pois acredito na pureza dos nossos sentimentos, ainda que o mundo queira corrompê-lo.

Disseram-me que eu, talvez, não te mereça. Quem sabe? Talvez eu realmente não te mereça aos olhos daqueles que concebem as pessoas como troféus. Devo guardar-lhe na estante, empoeirada, colecionando lembranças e afeições destruídas?  Tento ignorar os “conselhos” alheios. As vozes são muitas que quase não escuto a voz do meu coração... Ela fala tão baixinho, que às vezes chego a ignorá-la e isso só a frustra. Estou me abrindo aos poucos aos seus preciosos conselhos, não irei deixa-la ao relento. Quando penso em todo o “cuidado” que você tem comigo, reflito minhas atitudes e posteriormente me acalmo.




Você é como uma flor, a “flor da noite”, que demora tempos e tempos para desabrochar e mostrar sua beleza ao mundo que (infelizmente) dura apenas por alguns minutos. Tem que ser sábio para apreciar-la, pois é raro os momentos em que ela se abre. 

Minha dama da noite, estou aqui para ser transformado, mesmo que não venha a ter por mim sentimentos recíprocos... Estou com medo, não nego. 



Caminho em passos lentos, devagar, devagarinho, pois até mesmo o caminho que percorro, a natureza me ensina que tudo nasce, tudo cresce, tudo floresce, tudo se transforma e nada se perde, absolutamente nada...


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O Quarto de Rostos


A casa está vazia, exceto pela luz que vêm do corredor.
As lágrimas do céu escorrem, lentamente, e batem contra o telhado acima de nós.
tec, tec, tec.
Com o passar do tempo, o barulho se torna mais alto, mais intenso e mais rápido.
Assim como nós.
A chuva agora é torrencial, a casa agora é silenciosa, e a sua boca agora é alvo fácil.

Agora eu adormeço meio que contra a minha vontade, mas pela obrigação do ato, e também pelo meu cérebro já estar gritando por isso. 

Eu encontrei uma razão pra mudar,
Mudar de personalidade, de cidade, de nome. Eu sonhei com isso e acordei diferente.
A vida tem a habilidade de transformar um dia bom em um dia triste, numa velocidade incrível. O grande problema é que não consigo perceber quando ela faz o contrário. 
Ou talvez só esqueça de agradecer.

Eu acordo, mas estou em outro quarto, este rodeado por rostos em todos os cantos. Alguns olham pra esquerda, outros pra direita, e os demais para mim. Vidrados em mim, aguardando pelo momento em que eu começaria a gritar. Nós somos governados pelos nossos medos?
Mas em meio a tudo, eu vejo um rosto diferente. Seus olhos,
Tristes, como você fazia quando tinha que dizer adeus.
tec, tec, tec.
Foi o som que ouvi quando aqueles olhos se fecharam e tudo se apagou.

A minha boca treme, a minha mão sua em frio. Eu finalmente consegui abraçar o mundo, e admito estar feliz com isso, mesmo que meus braços doam todos os dias.
Uma pessoa muito sábia já havia me dito uma vez: "À ninguém, um fardo do qual não possa carregar."


terça-feira, 5 de novembro de 2013

A Ampulheta

...

Ele fez uma reflexão, através de uma singela carta, a respeito de uma ampulheta que havia ganhado de supetão. Não fora muito caro. Via-se simplicidade no objeto, entretanto, algo lhe encantava. Havia magia e mistério em torno daquilo que cabia na palma de sua mão. Só após muito encará-la, pegou o lápis e pôs a escrever para ela:

“Vou lhe confessar que de ontem para hoje, eu e a ampulheta estivemos nos encarando. Ela silenciosa; porém em constante movimento. Eu era instigado e atraído para ela. Pouco a pouco, ela foi me revelando toda a sua graça. Eis o quê me disse: 

- Como a Michele lhe disse, eu sou o Tempo. Agora, como observa com seus próprios olhos, ora o passado pesa mais, ora menos. Assim como também acontece com o futuro. Mas, por favor, meu caro! Não há razão para se preocupar. Veja que a única parte viva, em movimento, em mudança, é o Presente. Veja que o Presente só anda para você que o observa, quando você me ajuda, quando você me vira. Sei que é difícil me colocar em movimento a todo tempo, mas faço isso por seu bem. Não é atoa que tenho apenas um minuto. Quero te mover, quero que me mova; vamos! 

Já estamos nos entendendo. Agora somos amigos, faça valer nossa amizade. 

Como amiga, devo-lhe dizer que tanto o Passado quanto o Futuro são forças que movimentam o Presente. No entanto, preste bem atenção no que eu disse: apenas o presente movimenta, ou seja, acontece, vive, é. Perceba também que o presente, apesar de rápido, permite apenas grãos de cada vez. E que o futuro que vai se formando é feito dos mesmos grãos do presente que se acumulam, ganhando uma nova forma. Se me observas agora, talvez pergunte: “de acordo com a sua forma única, o futuro será sempre o mesmo?”. E assim, vou lhe responder: Eu sou apenas uma das Leis Universais. Eu sou o Tempo, nada mais. Lembre-se que dentro de ti há um presente e, assim como o meu, ele também é divino. Sobre seu espírito, regem todas as leis universais. Usando o meu presente a favor do presente que Deus lhe deu, aos poucos você conhecerá novas Leis, se caso permitir, elas serão suas amigas. Elas te mostrarão que o Ser é ilimitado, por isso, sua forma também é ilimitada. Juntos saberão o que construir com meus grãos.”


Com a carta na mão, seu coração era inundado com as belíssimas palavras de seu amigo. Suas emoções transbordavam naquela noite, fazendo-a rir e chorar simultaneamente, agradecendo intimamente o Universo por tudo o que acontecera na sua vida. Não havia mais razão para se arrepender. Mesmo que tivesse magoado pessoas em seu passado, agido de forma contrária aos seus princípios, isso não importava, não mais, não agora. As dores que se julgavam insuperáveis, tornaram-se mais leves e quase não se sentia mais os seus pesos. Não precisava carregar mais os erros ou se arrepender de escolhas más feitas. Tudo se tornou experiência e fez parte do seu amadurecimento. Ela chorou naquela noite e cada lágrima era transmutada em fragmentos luzentes permitindo que seu Ser se renovasse sempre que necessário, sempre que preciso.


Namastê ou Boa Noite leitores do Blog Neurônio. Meu chamo Michele Nakashima e fui convidada a contribuir com meus humildes escritos nesse maravilhoso Blog pelo Felipe. Eu não sei escrever muito bem e muito do que escrevo, em Fragmentos de Meu Ser, são reflexões a cerca do que vim vivenciando desde que me propus a seguir por essa trilha do “autodescobrimento”. Espero que estes escritos possam lhe ser uteis de alguma forma e estou aberta a sugestões e críticas construtivas, afinal, este é um novo desafio. Transcrevi, com a devida permissão, essa reflexão que meu amigo compartilhou comigo através de uma carta, escrita a mão. Fizemos um combinado de escrever cartas um para o outro. Sei que os e-mails são mais ágeis do que cartas escritas à mão, mas é como se existisse uma magia no ato de escrever. Assim, preenchemos as linhas em branco com as mais diversas percepções do dia-a-dia, com ensinamentos valiosos no campo infinito de possibilidades em que o Ser pode se desenvolver.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Haikai: Vida

Estrada confusa.
Tranquilo ser, lembre-me
Que a vida, parafusa.

Assuntos Inacabados


Nós começamos pelo fim, é o que parece. Os títulos não estão trocados, estão realmente na ordem correta. 
Como imagens que temos que colocar diante do espelho para poder lê-las.
Assim as vezes é a vida. 
O inverno está vindo, e sei que não é agradável, sei que a chuva e o frio não são nossos amigos.
Você está falando de mais, por isso a minha mão repousa sobre sua boca. Por que não deixar as coisas acontecerem normalmente, como têm sido?

Conforme o tempo passa,
Assim as folhas caem, e coisas estranhas acontecem. Fique calma, você não está louca, és somente mais um anjo em provação.
Eu entendo suas palavras, mas elas estão tão longínquas, seja no espaço, seja no tempo, que me parecem como caravelas. Navegando contra a distância que nos separa, a cada minuto mais, pois novamente estás voltando para casa. 

Muitas vezes acordei e beijei você. Não sabia se iria acordar - não era a intenção - e nem se iria lembrar-se - como você disse, não preciso tentar impressionar. Mas eu sim, eu lembro-me de quando me acordou e disse que havia sonhado comigo.
Preciso ser sincero, e até parece piada falar assim. Pois contigo consigo abrir-me de uma forma que minha índole não precedia.

As cartas estão postas. São coisas a acontecer, é nisso que acredito. E é por isso que, hoje, o momento de tristeza do adeus foi muito mais breve. Eu não crio expectativas, eu só rezo para ser surpreendido por coisas marcantes. E assim são os momentos que não quero enumerar, e não preciso.
Mais uma vez não pensei no que podia acontecer. Mas aproveitei tudo que aconteceu. Seria uma lição que aprendi? Se sim, ou se não, obrigado, até mesmo por me fazer pensar sobre facetas da vida, sobre ações minhas - mesmo sem perceber -, como também por me fazer acreditar que nem tudo está perdido mesmo.

I'm watching you sleep.

domingo, 3 de novembro de 2013

Individualismo exacerbado

O que queremos? Queremos ser vistos. Nem que seja por aqueles que não consideramos importantes. Com a ânsia que carregamos qualquer um vale.

Indústria humana. Consumimos coisas, desejos, materiais, até mesmo nós mesmos. 
Vivemos numa época onde desejamos ser valorizados e amados. Queremos curtidas. Muitas por sinal; O número aqui é importante. Ser invejado denota nossa superioridade, nosso sucesso sobre outro, que nem existe mais.
Buscamos por felicidade e autorrealização, mas não sabemos por onde começar.

Queremos tudo para agora.
Queremos ser perfeitos, bons, potentes e geniais.
Qual o fracasso mais odiado, senão o nosso próprio?
Parece um vazio que tentamos preencher...

Onde está A toda razão? Descartes foi um tolo. Ninguém pode existir apenas pensando.

Precisamos nos sentir amados por que ainda nos sentirmos desamparados nesse mundo gigantesco. Temos a necessidade de estarmos acima de alguém.

Faço parte de uma mídia; Somos números. Rotulados, testados e categorizados. Hoje eu que dou as cartas. Amanhã eu já serei trocado por um modelo novo de gente, por alguém com gigabytes á mais. 
Vivemos numa sociedade onde o que é importe é o progresso humano, não interessando para onde. O importante é evoluir, passando por cima de quem estiver na frente.



terça-feira, 29 de outubro de 2013

Por Uma Guerra


Queria que pudesses ver o verde que vejo,
As águas daqui são mais cristalinas e o ar mais puro.
Os campos planos se estendem até o perder de vista e o sol brilha mais limpo do que qualquer outro lugar.

Mas é tão difícil distinguir o verde, porque ele está banhado em vermelho.
Os rios já estão cheios de sangue e o ar de pólvora. 
Os campos que já foram planos agora estão cheios de trincheiras, corpos e bandeiras caídas ao chão. E sinto saudade do sol que se pôs há mais de quatro dias, frente a tanta poeira e fumaça.

Quando eu te disse que iria voltar, desculpe, mas estava mentindo. No fundo eu sempre soube, mas nunca pude te ver chorar, e por isso é melhor que você o faça longe de mim. Talvez você não acreditou mesmo, e o sorriso que me deu no adeus foi só um exemplo da força que têm.
Minha querida, eu aprendi uma coisa na vida. Que amar é mostrar todos os dias quão importante a pessoa é, como se não houvesse amanhã. 
E mesmo tendo feito tudo isso, ainda sinto saudade de enrolar meus dedos em teus cabelos.

Se você está recebendo isso, bom, quer dizer que já não estou mais aqui. Esta foi a primeira carta que lhe escrevi aqui, mas será a última que você vai receber. Quer dizer que dei a minha vida, sem querer, por conta de algum profeta ou por dinheiro. Quer dizer que te perdi, por uma guerra que não acaba e não tem previsão para tal.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Sereias

Possessão de espírito.

Perco minha sanidade toda vez que olho, mesmo que indiscretamente, para ela. Observando os traços, analisando as esperanças.
Tem gente que acredita em tanta coisa... Inclusive eu, encoberto de um excesso racional, cheio de teorias escritas pelos outros. Qual a diferença entre sentir e ter?

Todos os dias apaixonarmos diversas vezes. Seja por algo, ou por alguém.
Mas, quem entende sobre o amor, se cada um tem sua forma de amar?
Sou pego nessa rede como um peixe idiota, que nada num mar de águas negras. Não quero olhar para onde estou indo, não quero admitir essa fraqueza em minha existência, apenas sigo o som de Sereias me chamando, cantando sinfonicamente o que quero ouvir.

Tenho saudade de quando sentia saudade de mim mesmo. Hoje no meio dessa pressa toda já não sei direito quem eu sou, ou no que devo sentir saudade.

As pessoas ainda acreditam no amor universal. Diga-me, ser humano, como amar todos pelo que são se tudo que chamamos de amor é apenas egoísmo?
Não amamos o outro, mas sim uma imagem que criamos deles. Quando essa imagem não nos é mais interessante, então desfazemos dele, e dizemos da forma mais cruel que podemos que "o amor acabou", de que "você está diferente". Quando perdemos o interesse, quando as coisas mudam demais, abandonamos e deixamos tudo de lado. Estamos rodeados de coisas superficiais. Objetos superficiais. Sentimentos superficiais. Pessoas superficiais. Meu espirito está possuído. Cheio de coisas de uma só vez. Pode ser de amor. Pode ser de nada.

sábado, 19 de outubro de 2013

Desmerecerimento


Um sorriso que se vai, 
Resulta em solidão.
Quem somos nós, senão seres solitários?

É uma pessoa que nos sorri, e outra que chora
São espelhos solitários que nos trazem paz, 
São cheiros familiares, são abraços, gestos de carinho
Que quanta calma nos traz!

Chega de tentar rimar esse poema, como se a vida nos trouxesse rimas, senão coisas novas a cada dia!
Chega de tentar questionar o meu sentimento por você, só viva-o!

Quando falamos sobre escolhas, não sabemos o que dizer
Quando falamos sobre sentimentos, não sabemos o que sentir
As vezes penso quão ignorantes somos, mas então percebo que fazemos o melhor com aquilo que temos.

Menina linda, tire essa uniforme de colégio. Tire também os óculos, suas lágrimas estão embaçando-o. Você não vai voltar no tempo e conseguir consertar todos os teus erros. E que isso seja regra, pois ao tentar consertar os nossos erros, podemos cometer alguns até piores.

A senda da vida nos traz aquilo que merecemos, até mesmo aquilo que pedimos. O problema é que, geralmente, não merecemos muita coisa, e muito menos sabemos o que pedir.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O Retorno de Saturno


Ele ligou pra ela, sem expectativa. Ela atendeu. Mas isso foi depois.

Ele se vestiu mais cedo, pra impressionar. Pela primeira vez não pensava no que iria acontecer, nem no que falar, e muito menos havia criado expectativas.
"Eu já havia visto esse olhar." Ela disse. E foi a coisa mais forte que alguém já tinha dito a ele. E disse mais, disse que não havia necessidade de ele importar-se com ela. Como se fosse possível. Como pode um ser tão especial, ser tão complicado?

"Fica bem" foi o que ela mais repetiu naquela noite.
"Vou ficar, mas não hoje" foi o que ele pensou em responder.

Nem hoje e nem amanhã, foi o que ele devia saber. A essa hora ela deve estar em um ônibus. E do jeito que é, deve estar contando os quilômetros até o seu destino, pra se ver mais uma vez livre, só ela e o mundo. Mesmo sabendo que deixa pra trás pessoas importantes pra ela, ela sabe que precisa ser única. E consegue. Ela não tem medo de ser assim, de apoiar os pés na cadeira da frente, de não poder ver sangue em um filme, de falar o que pensa e de se sentir mal, caso não fale.
Antes de ir, só saiba que sua risada foi a coisa mais gostosa em tempos.

Ele pediu desculpa por ter aberto tanto seu coração. Ele disse o que pensava, pois pensava que, mesmo que sentisse vergonha daquelas palavras no outro dia, ela não estaria ali pra fazer qualquer julgamento. Ela não estaria ali, na sua frente, enquanto um percebia que o olhar do outro não é coisa recente. Não estaria ali para dar aquela abraço único. E talvez nunca mais esteja. Por isso um livro de presente, pra saber que, mesmo daqui a mais vinte anos, aquela dedicatória não vai sair da contracapa, nem aquela assinatura. Ele rezou pra conhecer alguém especial, e conseguiu. Talvez não fosse tão ruim assim, ele só não soube pedir para que ela não fosse inalcançável.

Fique bem, ele quis dizer mais uma vez. Era a coisa mais sincera que podia sair naquela hora. 
Essa é uma história que só duas pessoas vão entender, que só duas pessoas vão saber que aconteceu.

Is this a goodbye?

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Saudosismo de criança

Os barulhos lá fora parecem de cristais caindo no chão.
Sinto o cheiro da água no ar. Aquele gostinho de terra molhada invadindo meus pulmões quentes.
Parece apenas chuva, mas tem muita tristeza escondida aqui...

Percebo a chuva com paciência, mas uma ansiedade pulsa por dentro de meu coração, queimando como uma brasa viva que fica velha e menor a cada carbono que o oxigênio leva embora.
Percebo o mundo com uma ansiedade de gente grande, e a chuva não é mais a mesma chuva que outrora me alegrava, que me fazia imaginar as brincadeiras em um universo paralelo. Pular em poças sujas de água, vendo a felicidade em tudo, sentindo-se apenas feliz. Hoje o que tenho é apenas o conhecimento Aristotélico da Felicidade. Tão técnico... Tão metafisico.
Hoje a chuva não passa de um obstáculo inconveniente, que dificulta meu trajeto da universidade para casa. A pressa não me deixa ver quem passa na rua; humano, assim como eu.
Não parece a mesma chuva de antes, sem duvida algo mudou. É difícil admitir que crescemos e que toda mudança implica em escolher, e escolhas sempre (sempre) resultam em perdas.
Mas o que perdemos ao nos tornar nesses adultos neuróticos e cheios de preocupações? E o que ganhamos?

Carregamos nosso mundo em nossas mãos. Ele não está pronto, e não acredito que um dia possa estar.
É como aquelas massinhas coloridas de modelar que brincamos na outrora e saudosista infância: Até o dia que essas massinhas se ressequem e não possam mais ser utilizadas, nunca pararam numa mesma forma. Sempre mudaram, sempre se adaptaram. Misturaram-se a outras cores e se modelaram.
Então me pergunto: Qual é a forma atual de nossa massinha? Como é nossa vida agora?

domingo, 6 de outubro de 2013

Estilhaços de vidro

Perdoar o outro é sempre uma tarefa difícil. O não perder vira uma questão de orgulho, pois estamos acostumados a sempre estarmos certos.
Cobro demais a mim mesmo. 
Exijo de mim o melhor o tempo todo, e isso me sufoca por dentro, como se estivesse numa câmara de gás, na qual meu eu está lá dentro batendo nas paredes para tentar sair.
As paredes são ocas. Tudo parece desvelar agora.

Quando é que começa nossa vida?
Muitos falam para continuar acreditando no amor, e que ele é bom. Bobagem, o amor não é uma virtude, e seu excesso (assim como sua falta) se torna um vicio. Um vicio que encontramos dificuldades em sair.
Estamos presos em nos mesmos.
Que relação de poder é essa que significamos com os Outros? Só sentimos raiva em quem nós achamos que podemos ser superior em alguma forma. Relacionamo-nos apenas com aqueles que nos identificarmos, e assim criamos nossos sentidos. Estamos vulneráveis demais apesar de parecermos estarmos sempre fechados.
Nunca vejo ninguém escutar minhas dores. A felicidade está mesmo na capacidade intelectiva? A gente só consegue ser feliz com aquilo que já temos, com aquilo que já somos. Desejar os outros é beliscar na própria pele, é se envenenar em gotas diárias de sofrimento e esperanças, é pisar em cacos de vidros.

Quem é o seu amor? Qual é o seu desejo? Ele é mesmo seu?



terça-feira, 1 de outubro de 2013

A Diferença


Uma garota com seus olhos azuis corre com seus braços abertos pela praia,
De longe alguém chama seu nome e lhe avisa que está chovendo.
"Qual o problema?" ela pensa consigo mesmo, "Estou cercada por água e preciso ir embora por alguns pingos que caem do céu?"

Como uma tempestade ela foge daquilo que a persegue, 
Mesmo que ninguém mais veja, ela sabe que está sempre um passo atrás.

É a mesma garota que escuta a opinião de todos a sua volta, mas só toma as decisões com suas próprias ideias.
Que não segue o que o mundo quer, que não liga pra palavras ditas em vão, usadas por tantos, em tantos lugares.
Seu coração vive em uma segunda guerra mundial, mas sua mente sã ainda a comanda por entre trincheiras.

Enquanto uns levam armas, enquanto outros levam flores, ela leva só um sorriso no rosto, e é o que mais faz a diferença.

Como uma atleta ela corre, ora ou outra passando a mão no rosto para arrumar os cabelos. O que a persegue é tudo aquilo que ela mais teme: O amor.


domingo, 29 de setembro de 2013

Não é pessimismo

o que eu vivo dizendo para os outros.

Acordo cansado das mesmas histórias, das mesmas cobranças, das faltas de nexo. Cansado desse mundo desenfreado.
As pessoas trabalham demais para pagarem dividas que nunca serão quitadas totalmente. Vivem enganadas num sistema cruel e imperialista.
Vivem correndo atrás de idéias que não pertencem a elas próprias.
Você, é você mesmo que está perdendo seu tempo lendo mais essa mensagem do mundo do entretenimento que te hipnotiza o tempo todo, qual foi a última vez que se sentiu bem de verdade?
Vivemos presos nas angustias e nas ansiedades que criamos nesse delírio coletivo. Vivemos no passado e no futuro. 
Onde está o presente senão o agora? Chega de besteiras, o presente acabou de virar passado. Tão volátil quanto às relações superficiais que me sufocam. Sempre julgamos o mundo a partir do nosso Mundo! Sempre buscamos por sentido naquilo que não consigo conhecer, como uma criança que só vê o mundo a partir do próprio umbigo. 

Entro em crise e desespero. E é nesse momento que me escondo, me isolo e me calo. É o meu modo de dizer que preciso de um tempo; tempo para cuidar das próprias feridas. 
Preocupo-me quando percebo que solucionar meus problemas parece muito mais difícil do que resolver os problemas dos outros. Sempre existe uma receita de bolo que cabe para alguém, mas nunca para mim. Por  quê? Por que ninguém entende ninguém verdadeiramente (?).

Achamos que sabemos cuidar de muita gente... Quando é que vou aprender?
A gente só pode ser melhor ou pior do que a gente mesmo.


sábado, 28 de setembro de 2013

Passos em Falso


Eu  me perdi no mar de cobranças que eu faço pra mim mesmo, e foi só quando eu caí que percebi que a falha ou o acerto são inevitáveis e fazem parte de um grande jogo de tabuleiro. E quem joga esses dados sou eu mesmo. 
Como seria bom, se a felicidade fosse como o som. Que não pudéssemos deixar de ouvi-la mesmo tapando os ouvidos.
Acerte o acorde, faça o gol. Fale olhando nos olhos, chore escondido. Olhe para ambos os lados antes de atravessar, não olhe para o mendigo que dorme com frio na praça. Sinta ciúme, aconselhe que isso é errado.
Tudo indica que eu estou em uma partida de xadrez, em que sou a única peça deste lado. Eu  me sinto como o rei, mas a cada jogada as minhas chances ficam menores. É questão de sorte, sair vivo daqui. É questão de sorte, criar a expectativa e ser bem-sucedido nela. 
Estou aqui parado, tentando ouvir aquele som. Mas algo me empurra, e quando me viro para encará-lo, me deparo com minha própria imagem, repetida em um exército. Cada um tem um rosto diferente e uma palavra única em sua boca, como se cada um daqueles representasse um dia passado de minha vida. Então todos param e, lentamente, viram-se para mim, com seus rostos imóveis, aguardando um próximo comando.
Neste momento me sinto como comandante, e me sinto inseguro. Todos precisam de uma escolha minha, e um passo em falso é mais um rosto triste na multidão. Seria tão mais fácil se decidissem por mim, eu penso em silêncio. Mesmo que isso signifique que quem está na direção sou eu, e eu preciso olhar para ambos os lados antes de atravessar.


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Planos Perfeitos


Menina, largue a boneca, faça jus às ideias que você compartilha com seus amigos.
Meu bem, nós já fizemos tantos planos que não deram certo que isso tudo mais parece um desenho animado do que a vida real.
Já que a vida não é uma composição de Tallis em que tudo se encaixa, por que não atirar a bola pra frente e ver o que acontece?
As palavras que você falou são frutos do passado, no momento exato em que você as pronunciou.

Por que é que você entendeu tudo errado?

Menino, quem vai lembrar de você quando tudo acabar, e por quê? Tudo isso que você faz, incluindo esse romantismo exagerado, só o fazem parecer um idiota para a opinião alheia e destruidora. 
Todas aquelas cantadas baratas e todas aquelas amigos que foram embora e não voltarão mais se tornaram somente lembranças, as quais você se apega como se fossem um prêmio da mega-sena acumulada.

Por que é que você não percebeu que devia ter feito tudo diferente?

Meninos e meninas, eu os vejo de longe, trocando olhares em meio a outros milhões de pessoas. Façam seus planos perfeitos e acreditem que existe alguma coisa nesse mundo que não é finita. E boa sorte.


domingo, 22 de setembro de 2013

Um Sentimento em Comum


E o tempo passou. Passou, e passou tão longe, que só pude ver suas luzes indo embora.
Só consegui olhar para o chão, esboçando um sorriso.
O que mais eu podia fazer? Será que temos que ver as coisas indo embora pra poder se movimentar?
No futebol, é a bola que precisa correr, e é ela que corre nos pés de um jogador habilidoso.
Na vida, quem é que precisa se mover?
És dono das próprias pernas?

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Futuro incerto

Misture aquela sensação boa com um bom banho quente.
Que emoção é esta que mantem minhas pernas de pé? Vejo água escorrer ralo abaixo, mas parece que ela não está lavando todo esse temor que sinto. Algumas coisas ficam presas como uma marca ruim, um código tatuado na alma. Um sinal para nunca esquecer.
Os músculos trepidam de dor.
Tenho medo do futuro, apesar de não avista-lo. Cultura saudosista prestem atenção no meu grito que pede apenas Liberdade.

Falaram que é o vazio dentro de nós. Falam que ele é do tamanho de Deus. Eu sei que existe uma diferença entre o vazio e o nada.
Perguntei aos filósofos da minha época, mas eles não souberam me responder algo que me acalmasse. Falaram apenas de um vazio que está presente nos outros, e o nada para onde todos vão. Falaram de todos, menos de mim, e deles próprios.
Aprendo, mesmo que aos poucos, que tenho que achar minhas próprias respostas. Eu sei que existe uma diferença entre o vazio e o nada, apenas não sei qual é.
Meu interesse.
Pensei que era o único no mundo, o mais importante. O tempo todo, e tudo que tenho são baseado no interesse... dos outros.

De que ordem eu faço parte?
Estou ligado num futuro incerto. Às vezes tenho vontade de escrever um livro, em páginas amarelas, em poucas páginas. Um livro de apenas um leitor. Sabe aquele futuro ali na frente (consegue ver agora?) é a única coisa que tenho hoje.





quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Maestro de Mim


Foram dois acordes e três oitavas que bastaram para alguns calafrios.
Esqueci o mundo a minha volta. Olhei várias vezes de um lado para o outro, na linha do horizonte, mas a minha retina estava a quilômetros de distância. Primeiro, parei de perceber a textura dos materiais, depois, os tons das cores e, por último, fechei os olhos e chorei.
Chorei como uma criança pode chorar, mas em intensidade. Porque a pureza do choro de uma criança é inalcançável por alguém que tanto mal já viu.

Eu havia alcançado ao longe meu objetivo, depois de ser errante por tanto tempo.

O caminho era feito de pedras predispostas umas do lado das outras, algumas separadas por grama, outras por terra. Andava eu rodeado por outras pessoas, peregrinos vestidos com túnicas negras e cabeças abaixadas. 
Nós vivemos andando e olhando os outros ao nosso redor. Isso torna muito difícil a autocrítica, a real opinião de nossa própria imagem.
Eu não podia perceber que também estava vestido de preto. Também tinha uma túnica em minha cabeça e também seguia uma música levemente melancólica em murmúrios.

Me aproximei daquele lugar. Parecia ter sido construído há milhares de anos, mas não perdia seu sentimento de calma e tranquilidade.

Eu desliguei os aparelhos e entrei. Me desliguei do mundo e adentrei outro, clássico, tenor e soprano.
Ouvir as vozes perfeitamente encaixadas, desde o menor até o maior tom, todas seguindo aquele único que se posta de frente delas, me fazia refletir. Será ele, o maestro, parte incontestável do sucesso da música? Serão todas as vozes, dentre seus talentos próprios indiscutíveis, independentes dos movimentos do maestro? Ou a música é um produto da mão que comanda e da voz talentosa que obedece?

Não entendo. Tenho a voz que canta a melodia, ou tenho a mão, que comanda a sintonia?


domingo, 8 de setembro de 2013

Cético demais

Não é apenas uma ideia minha.
Tudo acaba fazendo parte de um todo, grande como a nossa própria criatividade, grande como nossa própria arrogância que sucumbe todos nós...
Muita gente fala do brilho dos pensamentos bons. Aliais quem, nesse mundo horroroso, vive sem se iludir com este positivismo total? A Esperança não deixa de ser um fracasso adiado para o final.
Pensamento é vida.

A gente nunca tem tempo para ver as cores do dia, o cheiro da chuva, nem ao menos a ardência da luz do sol. As coisas estão turvas, cansadas, meio bagunçadas como um armazém sujo e abandonado, cujo zelador abandonou seu cargo há alguns meses.
Qual é minha parcela de culpa disto tudo? Dê-me um porquê para não agir de má fé, e por a culpa dessa desgraça nos outros. Quando o carro estraga é sempre melhor por a culpa no mecânico. 

Eu vejo o vazio. A ausência de sentido em cada fragmento. Cadê os positivistas agora? O mundo se definha em doses venenosas. Ninguém liga para ninguém.
Eu vejo o nada, e o nada está em mim.

Essa pressa toda, essas relações superficiais, toda essa incerteza, esse individualismo e imediatismo...
As coisas estão em crises.

Nossa espiritualidade clama por uma revitalização, nós, que somos céticos demais. 
Aprendemos a acreditar apenas naquilo que nos convém, apenas naquilo que nossos olhos cegos conseguem ver. Tudo vale para nosso sucesso individual.
Vivemos de finais de semana!
Como chama este tédio, esta depressão da razão?

Onde estão todos agora? Eles parecem que se perderam...
 ...no vazio de si mesmo, assim como você, e eu.

domingo, 1 de setembro de 2013

Mártir por um Coração

Cada mente, um universo.

Me mande para o hospital, eu quero conversar com algum médico
Um psiquiatra ou até mesmo um padre, alguém que me entenda
Por favor enfermeira, leve a dor embora daqui,
Mas traga baldes, e muitos.

Medique-me doutor, deve haver algum remédio que cure essa doença humana
Acreditar naquilo que é real
Quando tudo que é real, ou o que parece ser,
São produtos da nossa mente
Quando o significado de realidade não passa daquilo de que acreditamos "ser".

Vivendo em mundos diferentes,
Nós humanos conhecemos um só planeta
Mas são 6 bilhões de Terras dentro de um só orbe
Aquilo que é pra mim, não será pra você
Quando você se corta, de que cor é seu sangue?

O grande problema, ou solução, ou mártir de cada um de nós exalta-se daquilo que chamamos "coração"
São sentimentos, e não somente amor, como pode ser confundida a palavra sentimento.
Trata-se de raiva, ciúme, orgulho, amizade, confiança
Estas nossas ruínas, nossas vulnerabilidades
Mas podemos viver sem sentimentos? O que nos diferenciaria de uma máquina?
Teríamos o poder de escolher não seguir ordens? Qual teu propósito aqui, seu consumidor de oxigênio?

Eu não estou fodendo sua mente, nem mesmo a minha,
Aquilo que é, já não pode ser desfeito, remediado ou simplesmente morto
Seguimos de segunda a segunda acreditando que o passado passou, o presente é a chave e o futuro um baú de tesouros.
Espero piamente que, ao abrir o teu, encontres mais do que um coração que falta em teu peito, mas que ainda bate, em meio a algo frio e sujo.
Pois vá em frente, faça aquilo que acredite
Como sempre, estarei aqui. Mas entre na fila, pois meus dois ombros já estarão ocupados com pobres amigos que choram por não poderem mudar o resultado que encontram em seus baús.
"Siga seu coração" já foi uma frase mais sabiamente utilizada.

Ei, senhora, seu tempo já acabou. Próximo!

sábado, 31 de agosto de 2013

Histórias Novas, Canções Originais, Monotonia


Estou em ruínas, mas veja bem e entenda
Os maiores patrimônios da humanidade já foram construções majestosas
E que hoje encontram-se disponíveis para visitação

"Veja o coliseu! Como era lindo! Mas usado com propósitos tão banais!"

Quer conhecer a bondade das pessoas? Basta conhecê-las.
Mas e sua própria bondade? 
Você algum dia já deu comida para alguém antes de encher seu estômago?
Meu Deus, hoje é domingo. Vá a missa, repare nas pessoas que lá estão e volte para casa comentar sobre elas em sua mesa do almoço, repetindo coisas, julgado presenças que, ao seu ver, não poderiam estar lá
Conte-me uma história nova, cante-me uma canção original.

Vamos gerar uma histeria em massa, desposar cargos autoritários, virar seus lençóis do avesso
Veja seu coração! Uma bomba, em todos os sentidos possíveis, ora prestes a explodir, ora prestes a contornar marcos de um caminho. Desculpe-se por usá-lo para propósitos tão banais, mais carnívoros do que os animais que encontras em um zoológico.

Ninguém vai se preocupar com sua dor, antes que se preocupes com a dor alheia. Engula com dificuldade sua comida e ofereça um pouco aos necessitados
Algum dia depois do fim desse caminho maluco, encontraremos uma boa cama e um bom travesseiro.

Uma monotonia escultural..

domingo, 25 de agosto de 2013

Lobotomia


Quando a chuva veio limpar o retrovisor, foi que eu consegui enxergar
Aquele ponto no meio do espelho não era um ser qualquer, vestido de preto
Era minha própria imagem do avesso
Como se eu vivesse do outro lado do meu reflexo
E o mundo em que vivo fosse somente produto de uma operação de 20 minutos

O inferno passa aqui do lado todos os dias,
Ele remexe minhas gavetas, a procura de algo que desconheço.
Sobe em minha cama enquanto durmo, vagarosamente, e tenho medo de abrir meus olhos
Pois sei que ele estará ali, logo acima do meu rosto
Olhando-me com olhos frios, mas vermelhos como sangue, esperando o momento em que minha curiosidade vencerá meu medo de encará-lo de frente

Já é tarde, mas é cedo
Estou indo dormir no mesmo momento em que ouço outras pessoas tomando seu desjejum
Então percebo que tudo é questão de um prisma, questão de ponto de vista
Como se a própria vida fosse um emaranhado de significados, que só variam conforme os lugares em que repouso meu olhar
Mas e não é mesmo?

Eu me viro para o céu e procuro aquele que chamamos de Criador;
Por que será? São tantas perguntas que faço,
Que no final das contas tudo que me compadece são raios de uma lua que já se põe, dando lugar a algum astro rei por trás de nuvens brancas

Deito-me sobre lençóis, meu peito arde, e não sei se é de sono ou de algum sentimento de que ninguém sabe ao certo o significado, o porém e o motivo
Apago a luz do quarto, e já sei que preciso me conformar com o escuro
A lobotomia já não traz mais seu efeito.