Neurônio da Semana

Se temos a possibilidade de tornar as pessoas mais felizes e serenas, devemos fazê-lo sempre. - Hermann Messe

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Lição das Trevas: Epitáfio

"As nuvens engoliram tudo.
Esse é o horror que a vida carrega? É estranho demais pensar que uma ora estamos aqui, e depois não estaremos mais. Qual é mesmo o sentido da vida? Viver é lutar contra a morte... lutar o tempo todo."

Abri os olhos com receio do que podia ver. Estávamos cobertos pela terra marrom. Não havia sinal de mais nada além do grande vazio que sucumbia todo o nosso redor. Fazia silencio lá fora, e dentro de mim o frio que cobria meu coração durante todo este tempo parecia se acalmar.
Ele está por perto, seus olhos já estavam abertos quando percebi sua presença, via os dois claramente pela primeira vez. Congelei por um instante, receoso em não saber o que fazer, olhei para o alto, já estava amanhecendo novamente. O que ele fará agora?
Jamais pensei que este dia chegaria. Uma estranha sensação passou pelo meu corpo, uma espécie de calafrio. Não era bom, mas também não parecia ruim. Ele respirava com dificuldades e algo nele estava  se esvaecendo. Meu coração se abafava novamente.

- Então quer dizer que um final existe? - perguntei, mas Ele não respondera.

Sentava lentamente ao seu lado. Seu corpo tinha parado de emitir aquela aura agressiva que me distanciava dele. Estava vulnerável como todos nós.

- Escuto o som dos sinos tocarem o balançar de uma despedida. - disse Ele com a  voz tremula - Consegue ouvir também? Os violinos já tocam  harmoniosamente, se despedindo do Piano Negro.

Não conseguir evitar, as lágrimas desciam mais uma vez. Estavam secas, mas molhadas o bastante pata limpar a sujeira de meu rosto. Por que choro tanto?

- Desde o inicio é o que tu tens mais feito.
- Sou mesmo tão inútil. No fim das contas por que não consigo celebrar minha própria vitória?
- Talvez uma vitória plena não exista.
- Quem sabe... nada disto nunca existiu.

Ouvia Ele pela primeira vez com atenção. As dores que sentiam não eram mais fortes que minha vontade de tocar em sua mão uma única vez. O coral do fundo também cantava ao som de um momento final. As coisas se despediam aos poucos. Consegue ver o céu chorar? Tudo aqui parecia se despedir.
Uma gota. Apenas uma gota foi o que desceu de seu olho azul direito. Fixava toda a minha atenção em sua expressão vaga e sem brilho. Quando sua lágrima molhou a areia do chão pude ter certeza que ela era real. Qual é o motivo, dor?

- Lutamos sempre pelo que vale a pena. Caso contrario nem chegaríamos a tentar. Toda história tem um fim, toda guerra também. O que difere é o que fizemos durante todo o percurso. - disse Ele.
- Eu lutei por muitas pessoas e coisas que não valeu a pena lutar.
- Não adianta se culpar mais uma vez, as pessoas que deixamos de lado não voltam para nós. E se voltarem, já não são as mesmas de antes.

O tempo passava devagar. O som de um piano triste tocava nos meus ouvidos. Eu sabia que estava no fim, mas algo em mim queria voltar para trás, queria fazer diferente. O que está acontecendo?

- Uma vez me perguntastes se estava satisfeito com o que me tornei. A resposta é não. Sempre tento ser alguém melhor, mas as coisas tendem a dar errado, como deu no fim. Eu não tenho mais escolhas, eu não tenho mais quem ser!
- Angustiado pelo próprio caminho que escolhestes? Persistir no erro já é uma escolha, sinta-se feliz com ela. Ser o Arauto da luz nunca foi uma missão fácil.
- E nem sempre ela é o mais certo, não é mesmo? Vivemos tão cegamente um ideal que às vezes esquecemos-nos dos idéias dos outros e iniciamos todas as calamidades do mundo. Por que é tão difícil viver em harmonia, afinal?
- Com a morte, aprendemos a viver. Apenas quando deparamos com o fim, o destino de todas as coisas, é que percebemos o quão breve somos para ficar  perdendo tempo com nossas arrogâncias.
- É esta a importância da fraternidade, então? Manter unidos mesmo sabendo de nossas falhas, mesmo sabendo de nossa condição. Individualismo nunca nós levará em nada. Mas conviver com os outros é sempre tão difícil. Existe sempre um outro alguém que nos quer mal, que quer nos prejudicar. O que fazer com eles?

Ele respirava com dificuldades. Seu tempo estava se esgotando. O coral cantava mais forte, o final é eminente.

- Se você continuar julgando-os assim antes de conhecê-los, jamais abrirá espaço para o dialogo. Muitas vezes somos nós próprios os causadores de nossos males, e não alguém de fora. Conviver com nossos medos, nossas perdas, nossos sofrimentos é muito mais complexo do que lidar com os outros. É como um oásis: belo, mas perigoso.

Ele fechou os olhos por um instante. Lágrimas saiam de suas pálpebras fechadas. Desta vez elas saiam de dor. Quando voltara a abrir os olhos algo não parecia normal. Ele estava cada vez mais sem vida.

- Não! Por favor, me ajude, não quero me despedir de você também! Nossa história já tem perdas demais, me ajude a me tornar mais humano, não me deixe sozinho nesta terra utópica e desgraçada. Por favor...
- Este é apenas um fim. O final de um ciclo que se fechou. Outros mais irão se abrir. Não se entregue junto de mim, fique aqui para provar que eu existir.
- Mas você sempre esteve comigo, sempre me pós para cima! O que farei agora nesta terra desolada, sem ninguém? O que o devo fazer?
- O que fazer para se levantar na escuridão? Não adianta mais me perguntar, você sabe a resposta. - disse Ele numa voz fraca jamais vista por mim - Celebre com a Luz! Parece que finalmente estou indo embora, eu já não tenho mais uma lição para você.

O piano tocava lentamente. Quase não se escutava o barulho de nada ao redor. O que fazer para levantar na escuridão? Foi tão obvio como se já estivesse calejado de saber. Em movimentos leves levantei meu corpo quebrado. Estava de pé quando surgiu a primeira alvorada do novo dia. É como nascer de novo. O coral triste que parecia acabar voltava mais forte, como uma orquestra que tem altos e baixos, pausas e picos. Olhei para baixo sem acreditar que meus pés estavam de pé. Via-o Ele sorrindo satisfatoriamente para mim. Então era apenas isto que ele queria? Manter-me firme...

- Vou continuar porque sou humano. - disse sem medo de errar - E isto implica em ser forte e perseverante. Mas também sou fraco, admito. As vezes que perdi superam em números minhas vitórias. Minha força então vem delas? Das derrotas?

Não havia sinais das nuvens negras no horizonte. Aliais, não há sinal de nada, pessoas ou natureza. A guerra em seu final nos mostra toda a nossa selvageria incondicional. Somos capazes de aniquilar todos nós se não soubermos usar nosso conhecimento.

- A humanidade acaba quando seus significados desaparecem. O que ainda te liga a este mundo? - disse Ele, tinha virado a cabeça em minha direção.
- Eu não sei, mas vou me manter de pé até chegar meu momento de partir - secava os olhos. Observava o sol nascer gloriosamente em nossa terra. Aos poucos os pássaros voltavam a dominar os céus varrendo a tristeza, construindo novos ninhos mais uma vez. - O que você quer que eu escreva em sua lápide?

Ele sorriu. Olhou para o céu enquanto desabotoava suas grossas roupas. Era como se quisesse tirar o peso de se seu corpo para enfim ir em paz. Suspirou profundamente e fechara os olhos para sempre.

As nuvens engoliram tudo, eu sei, mas não é fim. Esse é o horror que a vida carrega? É estranho demais pensar que uma ora estamos aqui, e depois não estaremos mais. Qual é mesmo o sentido da vida? Viver é lutar contra a morte... lutar o tempo todo. Você me ensinou a lutar. Obrigado por tudo, amigo das Trevas. Descanse em paz.


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