Neurônio da Semana

Se temos a possibilidade de tornar as pessoas mais felizes e serenas, devemos fazê-lo sempre. - Hermann Messe

sábado, 3 de novembro de 2012

Vermelho Como: Água


Já cansado de andar, ele parou, de frente para o horizonte, o sol nascendo lá no fundo.
Atirava conchas, algumas com certa raiva, conforme as imagens passavam pela sua mente.
Uma briga, uma promessa, uma porta fechada.
Que culpa tinha ele, se o amor era como o mar, em que tudo que ele atirava voltava para ele?
Ele estava entrando mar adentro, ainda inebriado pelos pensamentos, pelas palavras ditas em vozes alteradas. Seu punho, cerrado, refletia não só a agonia que sentia, mas também as coisas que ele escolhia guardar dentro de si a dizer, quer seja para não piorar a situação, quer seja para não aliviar o seu coração. A água já batia na sua cintura, e ela estava gelada. Ele podia sentir o turbilhão que fazia a cada passo que dava. 
Parou, fechou os olhos e sentiu a brisa calma que levantava o seu cabelo. Sua boca já tinha em si o gosto de areia misturada com algo alcalino que ele não sabia dizer. 
Ele então olhou para a sua mão, abriu-a lentamente e lembrou de ali estar um coração que era pra ser seu eternamente. Mas agora só havia cinzas, que não poderiam ser curadas por lágrimas, isso ele sabia, pois já havia tentado.
Voltou a andar, a água agora em seu pescoço, e ele sentia que poderia ser agora, ele poderia simplesmente afundar a cabeça e esquecer de seus problemas. Em sua mão ele iria sentir novamente o coração pulsante, ele veria novamente o sangue correr tão rápido quanto seus olhos podiam acompanhar, ele não teria mais algo com que se preocupar.
E, no momento da tomada de fôlego final, ele pôde ouvir um grito romper o ar. Ele olhou pra trás e a viu. Mas já era tarde de mais, quando uma monstruosa onda surgiu, cobriu a sua cabeça e a luz do sol que ainda nascia no horizonte.
Seu último pensamento foi de indignação, afinal, por que ela havia demorado tanto para ir atrás dele? O tempo tinha acabado agora.

Um grito, uma mágoa.
E de rompante ele acordou e viu que tudo ainda estava no lugar. Os pôsteres, a luminária. Olhou pela janela e percebeu que o dia estava amanhecendo.
Uma porta se abriu. E ele sabia. Havia tempo para mudar as coisas.

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