Neurônio da Semana

Se temos a possibilidade de tornar as pessoas mais felizes e serenas, devemos fazê-lo sempre. - Hermann Messe

domingo, 11 de novembro de 2012

Negro Como: A Prisão



Ela andava em círculos, com as mãos delicadamente pousadas sobre a cintura.
Sua cabeça estava abaixada e seus olhos semifechados, mas ela conhecia muito bem o ambiente: Era o seu quarto, o seu porto seguro. Em cima da cama, além dos lençóis desarrumados como de costume, estavam as cartas de um certo alguém. De onde ela estava não era possível distinguir as palavras, mas sim o coração estampado em quase todas elas.
Mais uma lágrima escorreu pelo seu rosto.
Ela então parou, olhou pra cima e gritou: "Por que isso está acontecendo?"
Seus punhos se fecharam, e com tanta força que suas pernas vacilaram e ela caiu de joelhos.
Ela ainda estava sem entender o fim. Talvez as pessoas, por mais iguais que pareçam ser, sejam tão diferentes quanto o fogo é da água. Ela era o tipo de pessoa que precisava tocar as feridas, precisava fazê-las sangrar e sangrar até curarem-se. Mas ele não aceitava isso.
Por que ela não queimava aquelas cartas naquele mesmo momento? A pessoa que havia escrito as palavras tão simbólicas naqueles papéis era a mesma que criava as feridas nela e que não aceitava as consequências disso.
Uma a uma ela rasgou. As primeiras na escuridão, devido ao banho de lágrimas que seus olhos tomavam. Depois com um sorriso livre e leve que começava a percorrer ela. 
Na última carta, a mais velha, a primeira, ela parou para ler. Tudo era tão bonito, tão novo, tão admirável. Tão perfeito quanto um final feliz de um filme romântico. Mas o que estava escrito ali, senão mentiras, falsas promessas, correntes que a haviam enclausurado por tempo demais?
Como as outras ela a rasgou. E no último pedaço ela encontrou um coração, o coração padrão de todas as outras cartas. Mas nesse pedaço de papel ela não encontrou nenhuma palavra, somente o símbolo. 
De uma vida nova, de novos dias, de novos amores e de novas decepções. Ou felicidades, como sua esperança dizia, como o sorriso de uma nova aurora que ela levava consigo dali em diante.

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