Neurônio da Semana

Se temos a possibilidade de tornar as pessoas mais felizes e serenas, devemos fazê-lo sempre. - Hermann Messe

domingo, 4 de novembro de 2012

Lição das Trevas: Um fim

         Já era o momento de acordar. Minha cabeça rodopiava como um carrossel escuro e abandonado, prestes a ser demolido de um parque fantasma. Se havia algo que queria fazer agora era chorar para ver se as dores saíssem junto das lágrimas.

- Chorar mais uma vez? Isto realmente muda alguma coisa? - disse Ele decepcionado com minhas atitudes repetitivas.
- O que me resta fazer então, agora que tudo caiu? Estão todos mortos, tudo morto. A vida se ausenta mesmo quando eu insisto em chama-la de volta. Uma guerra nunca pode ter outro fim a não ser a destruição plena das coisas. Onde está a luz que tanto falam que carregamos no interior de nós? Neste mundo não existe mais nada que possa ser salvo...

         Ele não sabia me responder. Eu sentia isto! Encarava-me com o olho fixo, circulando em volta de meu corpo debilitado. A marca da devastação estava tatuada no corpo dele tanto quanto estava marcada no meu. No que vale a pena sofrer tanto? Lutamos por amor, igualdade, paz, justiça e o que mais? A humanidade está apodrecendo, e nenhuma gota de sangue parece valer a pena a ser derramada por estes homens escrupulosos e onipotentes, que cheiram a desobediência e orgulho. Talvez o mundo fosse  melhor sem eles, sem nós.

- Talvez? Agora está em duvida no que lutar? Você que tinha tantas certezas...
- Eu já disse. Lutamos por que planejamos um futuro. Que futuro tem estas terras negras? Que futuro terá se a única coisa que resta somos nós?
- Um fim chega para todos de qualquer forma. O que importa é como você lutou até o momento final.
- Eu queria... - comecei. As lágrimas voltavam a pingar, limpando o sangue coagulado do rosto - ao menos fazer algo que valesse a pena. Foi tudo em vão, tudo cairá no esquecimento. Este é o fim.
- A única forma de ser lembrado é estando ausente. Um herói apenas se torna Herói quando morre.

         Perguntava-me se ele tinha mesmo a razão, mas já era tarde demais para questiona-lo, as nuvens negras já estavam prestes a nos engolir. O que importa então é ser lembrado pelo que se tentou fazer?
        A escuridão vinha do horizonte como o poente de toda a luz. As nuvens negras estavam cada vez mais perto, eu nunca pensei que um dia elas chegariam. Ele as observa da colina, olhava com atenção como elas caminhavam engolindo todas as coisas. Logo em seguida Ele olhava para mim com preocupação, uma expressão de pena nos lábios, mas sem transparecer sua apatia. Centenas de pássaros voavam contra toda a morte, inutilmente, ainda procurando algum lugar seguro. Ele sabia que ao menos nisto, nada se podia fazer.

- Admita que Esse Mundo talvez não nos pertença. Nossa própria realidade sempre é diferente da que imaginamos. Você fala dos homens e de toda uma existência corrompida, mas de perto somos todos, apenas,... os mesmos humanos.
- Nada se pode fazer então?

         Ele não respondeu. Deu as costas para a escuridão que vinha em nossa direção. Os ventos soavam fortes demais e seus passos lentos mostravam pouca preocupação com o que estava por vir. Passou por mim esbarrando seus ombros nos meus como se quisesse me apontar para alguma direção, as mesmas que os pássaros fugiam por sobrevivência, as mesmas que Ele também seguia. Ele queria correr também, mas seu orgulho parecia não deixar... Por quê?

- Então, este é o meu fim? - perguntei, e ele parou de andar.
- Sim, é o inicio dele. Mas não é apenas para você; um fim é para todos nós.
          Então o Dia se esvaecia mais uma vez como um ciclo, que sempre insiste em continuar na alvorada seguinte. As nuvens negras alcançavam-nos finalmente, cobrindo o restante das coisas com agressividade e fome de destruição. Tudo parecia ir para os ares, e não havia mais nada ali que eu pudesse ver além do olho Dele olhando para mim.




2 comentários:

Felipe disse...

Se você quer evitar as nuvens negras, voe acima delas ;)

Carlos Filho disse...

A palavra 'evitar' me incomodou.
Devo mesmo evitar as nuvens negras, seja lá o que você interpretou delas, ou encara-las de frente?
Até que ponto viver evitando os fatos é a solução mais sensata? ;)