Neurônio da Semana

Se temos a possibilidade de tornar as pessoas mais felizes e serenas, devemos fazê-lo sempre. - Hermann Messe

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Lição das Trevas: Despedida

O precipício ao redor não parecia real. Aquele clima sombrio de um sonho me dava a certeza que finalmente, após todos estes dias, eu adormeci.
Estava contente afinal, apesar de não gostar das cenas turvas em minha visão.
O garoto segurava minhas mãos com força. Sua expressão de espanto implorava para que não o soltasse, pois a força da gravidade o puxava para baixo. Ele resistia heroicamente, mesmo sabendo que sua vida dependia apenas de mim, e não de seus esforços. 

"A vida sempre tem vontade de viver. E seu horror é saber o quão frágil e breve ela é. Somos tão pequenos. Um átomo no meio do tecelão do universo..."

Tinha  a impressão que estávamos horas ali pendurados. Sua máscara era a única coisa que me incomodava, me dando repugnância toda vez que olhava para seus contornos dourados. A peça de metal polido que cobria a metade de seu rosto me fazia lembrar Dele e de toda a sua apatia.
Custo a acreditar. Deixamos nos levar para o lado mais fraco. Não adianta apenas ter um coração bom, tem que saber preserva-lo. Entre no meio da maldade sem se proteger e veja como nossa carne é corrompida.
- Por favor, não me solte - disse o garoto.

Ele apertava cada vez mais forte minha mão. Sentia dele a vontade de viver, pois o calor de seu corpo pulsava nas veias. Teria caminhado junto de ti se soubesse que o fim seria este, e minha maior vontade agora era de abraça-lo forte e dizer o quanto a sua falta me fazia mau.
- Me puxa de volta. Eu quero voltar!

Ele sacudia a cabeça desesperadamente. Seu peso ficava cada vez maior. O pior de tudo não era saber de seu fim, era poder ver tudo isto e não conseguir fazer nada além de escuta-lo. Faltava palavras em minha boca apesar de querer me manifestar. Parecia que não estava vivendo o meu sonho; Parecia que não tinha voz nem em meus próprios pensamentos...

Aquela máscara maldita, parecia colada em seu rosto inocente. A perdição sempre deixa marcas permanentes, sempre deixa algo para se lembrar. Quando é que decidimos sobre nosso futuro? É melhor planeja-lo, ou simplesmente viver o presente?

Eu não podia fazer nada... talvez não quisesse, e este foi meu pior erro. Aguardei em silencio
até a sombra de alguém invadia o ambiente estranho, cobrindo a face amedrontada do garoto. Ele denotava medo, e algo o fez se decompor, perdendo a voz e a vontade de continuar ali. Senti o mesmo quando olhei para trás e vi Ele andando em minha direção em passos firmes, inflexíveis e o olho fixo em minha existência frágil. As pernas estremeceram.
Não sentia mais os dedos do garoto presos aos meus. A máscara que cobria meu amigo finalmente caíra, e junto dela um garoto triste...

O grito da morte soava como uma serenata de despedida, uma lembrança para chorar.
Acordei imóvel, meditando as ultimas imagens manchadas das lembranças. É triste quando perdemos alguém que amamos. Em minhas memorias, no entanto, lembro de todas as nossas aventuras, todos os nossas conflitos, todas as nossas semelhanças. 

- Cair no vazio nem sempre pode ser a pior escolha.  - Disse Ele para meu ódio - Finalmente ele esta livre de toda a dor. Celebramos tanto o nascimento e esquecemos do final, de fechar o ciclo. Agora tente celebrar a despedida, porque a morte é a prova de que um dia ele existiu. 

2 comentários:

Felipe disse...

Caro amigo, tudo bem?
Sem mais delongas, como sou acostumado, por que é que você não pulou junto dele?

Carlos Filho disse...

E aí meu campeão.
Quem é que disse que não pulei?
As vezes a queda pode ser algo muito simbólico, e que machuca mais que despencar de um precipício escuro.